04 Julho, 2009

EXÍLIO DE ZOÓLOGO



Eu queria lhe contar das brigas que não ando tendo com ninguém mais, por não ter mais ninguém ao lado com quem implicar de forma assídua e enriquecedora, como devem ser as Implicações de verdade, com “I” maiúsculo.

Nem tente dimensionar o quanto é gratificante essa opção que fiz de conviver com os pinguins e dedicar-me com afinco à minha variada e já até esquecida biblioteca itinerante. Pois é, eu que vivia correndo atrás do rabo, assumo o almejado posto de rato de livros, vocação que sufoquei por longas décadas. Tempo agora não me falta para, entre um içar de velas e uma ancoragem num cais de gelo, devorar de orelha a orelha “Os mecanismos de defesa imunológica do macaco-prego”, em edição revista e atualizada, “Focas não voam porque não têm asas”, “O pelo do hamster do vizinho é sempre mais liso que o nosso (digo, do nosso hamster)” e outros tantos volumes preciosos da moderna zoologia capixaba.

Não obstante tão fenomenal conteúdo a fazer-me prazerosa companhia, fica um vazio que busquei e do qual andava mesmo muito precisado. E digo que esse vazio inclui (se é que é possível o vazio conter alguma coisa) a ausência de cigarras de dia, de grilos à noite e até mesmo das quase inaudíveis pegadas de um suposto abominável homem das neves – que alguns juram vagar por essas redondezas muito abaixo de zero.


Mas deixemos um pouco de lado o reino dos insetos e dos seres de existência duvidosa. O fato é que estar aqui, no seio branco da madrasta Antártida, é “marolinha”, como diz o presidente que larguei aí com você e sua turma, no país dos Simonais que submergem e vêm à tona conforme os caprichos da mídia. Difícil mesmo vai ser quando acabarem os tocos de vela e as poucas folhas de papel pardo que restam na improvisada escrivaninha da embarcação. Aí não poderei mais lhe escrever, mesmo sabendo remota a possibilidade de vir a receber esses garranchos, já que muito provavelmente o derradeiro dos 17 pombos-correio que trouxe comigo não aguentará a jornada até a Terra de Santa Cruz. E ainda que chegue não terá fôlego para trazer a resposta, o que torna esta narrativa um enfadonho monólogo por escrito.

Você, amiga íntima dos meus desafetos, sempre me teve na conta de sujeito de raciocínio um tanto quanto ornitorríntico, de acordo com suas próprias palavras. Saiba que me é impossível atinar com a razão dessa blasfêmia. Exceção se faça, contudo, ao meu vício de imitar gansos cansados, coisa da época em que nos implicávamos, e que de fato poderia sugerir um distúrbio neurológico latente a quem não me conhecesse suficientemente bem. Sempre primei por deixar transparecer uma imagem de sujeito simples e dócil no trato, tão fácil de lidar quanto um lhama da Cordilheira dos Andes. E disso todos os dálmatas do quarteirão eram fidedignas testemunhas. Mas, tudo bem, seja ou não feita justiça à minha pessoa, não estou aqui por sua causa e nem lhe peço satisfações de qualquer ordem. Fique aí ao calor dos trópicos, abusando dos decotes e arrastando no seu cio todas as espécies da sua raça. De minha parte, enquanto houver alguma condição de sobrevivência, vou ficando por aqui, entre os pinguins.

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27 Junho, 2009

PEDRÃO SOLTA O VERBO


Pobres infelizes, até parece que vão conseguir alguma coisa a mais comigo por conta desse foguetório todo. Não posso falar pelo Antonio e pelo João, menos turrões e mais misericordiosos, mas da parte do Pedrão aqui podem tirar o cavalinho da chuva e esquecer qualquer ajuda extra. Além do mais, ninguém lembra de verdade da gente, servimos mais pra dar nome à efeméride do que pra qualquer outra coisa. Ultimamente, nem isso: é festa junina pra cá, festa julina pra lá e o santo homenageado fica de sonso na história, batizando um rega-bofe que compromete seriamente a sua honrada biografia.

Tem coisas que só dando risada. O que eles chamam de pau-de-sebo, este eucalipto toscamente besuntado e com a minha figura lá em cima, para mim só pode ser efeito desse friozinho de inverno sobre o cérebro, façam-me o favor. Que cheguem a mim pela caridade, pela oração e não por essa escalada anti-higiênica, que aos vencedores rende um prato de pé-de-moleque amanhecido ou prenda ainda mais reles, jamais o reino dos céus.

Deviam aproveitar essa fogueira enorme armada aí embaixo para queimar os hereges dessa pândega sacrílega. E como há gente, com esses inocentes vestidinhos de chita, calças de grife falsamente remendadas e dente pintado de preto, que merecia uma inquisiçãozinha daquelas, ao melhor estilo medieval. Não exagero, não. Eu é que sei como é que a coisa termina, eu é que vejo o ritual nada católico atrás da tulha do rancho e cafezal adentro, sob efeito do quentão e da vitamina E do amendoim torrado. Já vi um casalzinho – o padre e a noiva da quadrilha, por sinal – que findo o arrasta-pé fez o que tinha que ser feito escorado no já citado pau-de-sebo, sendo que o sebo acabou servindo para um expediente que nem estando nos fundos dos infernos eu ousaria narrar. Pelas túnicas de Barnabé!

Vejo pais de família e gente de moral insuspeita furtando paçoca, desviando rojões para soltá-los no próximo jogo do seu time, superfaturando cachê de sanfoneiro. Em tudo quanto é quermesse vejo barracas da pesca com anzóis viciados (sei por experiência própria porque de pesca eu entendo), envelopinhos de correio elegante com cocaína dentro – tudo em nome da devoção a este que vos fala. Fora as calúnias envolvendo minha pessoa que entoam abertamente por toda parte, dizendo que eu fugi com a noiva na hora de ir pro altar. Brincadeira inconsequente com o sacramento do matrimônio! E ainda falam que a dita cuja era filha do João, com quem o Antonio ia se casar. Aí já é demais, me poupem. São Pedro cobiçando a mulher do próximo, sendo que o próximo é outro santo!!!

Pergunto: que tem tudo isso a ver com este velho Pedro que andou com o Mestre sobre as águas, que infortunadamente o negou por três vezes, que tem as chaves do céu? Milho verde, pipoca, canjica, lá na Galileia nunca teve nada disso. E o delírio prossegue com mais uns outros termos sem pé nem cabeça, que um sujeito fica entoando no microfone enquanto os caipiras de fachada saracoteiam aos pares: caminho da roça, balancê, a ponte quebrou, olha a cobra...

Vou é fechar o tempo e mandar uma chuva pra acabar com tudo.

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20 Junho, 2009

CINE LUXOR


Vinte e quatro quadros por segundo. A ilusão do movimento no seu olhar desiludido, em jogos de luz e sombra. Veio porque é domingo, depois da igreja e do almoço só pode haver o cinema. As manhãs preguiçosas do domingo, as tardes estéreis do domingo, as noites insuportáveis do domingo trazendo o nojo inevitável da segunda.


Ceda. Deixe estar, não há o que possa ser feito. Nada como uma inocente matinê quando o oco da existência se apresenta e toma assento. É, está sentado ao seu lado com aquela cara impassível e pagou meia, o espertinho.


Lá fora o mundo é lesma, um esparramar demoroso. Só o que prossegue é a sessão nesses rincões esquecidos. Uns poucos bem-te-vis pousados nos beirais do palácio branco em frente ao jardim. Num dos quartos alguém decerto faz a sesta reparadora. Passe pelo corredor, pare na sala. Os retratos a óleo simetricamente dispostos, os móveis espanados. Os ricos fartos do seu manjar, seus rostos sentindo agora a felpa dos veludos. Estão em paz com seus corpos e saciados em seus haveres.


Pegada à mansão, a escola. Muda e descorada, descansa solenemente da algazarra dos meninos. Em preto e branco e câmera lenta, um cachorro erguendo a pata e urinando no pneu. Todos na Vila Alva cheios como pneus – do dia que não acaba, das horas que não passam, da notícia que não chega. A rotina sem novidades de qualquer ordem, substancial e definitiva como um paralelepípedo. É o momento em que o olho pede lupa, a alma pede ânimo e cada coisa estática mostra a crueza que tem.


Espere um pouco. Volte ao filme. Rebobine, projecionista. Dez minutos de devaneio e lá se foi o enredo da história. Se alguém perguntar qual filme viu, não saberá responder. Abra uma bala. Chore, chorar faz bem. Nem vão reparar, tão pouca gente aí dentro. Estúdios de animação do mundo todo, uni-vos para animá-lo. Depressa, antes que lhe arrastem mil elencos de fantasmas e vilões. Lanterninha, acuda lançando luz sobre seus olhos marejados.


A perna dorme, o corpo cansa no estreito da cadeira. Cruze os braços, tente entender os diálogos sem olhar as legendas. Durma. Faça como a perna: durma. Tanta gente paga ingresso de cinema para dormir. Jogue-se num triplo mortal ao centro da tela. Deixe-se ser o mocinho desse roteiro caótico. Corta. Câmera abre o enquadramento e faz uma lenta panorâmica por toda extensão do que você foi até agora. Basta de fazer o cartaz do filme alheio. Veja a platéia vendo você dentro da fita, brilhe, acene, dê autógrafos, sinta aos seus pés o tapete vermelho da entrada do Oscar. Perpetue-se no celulóide. Coragem, vá. Queime de uma vez os negativos desses dias: bem-vindo à avant-première de si próprio, em doube surround e pleno de efeitos especiais. A comédia de levezas indizíveis, com o sapateado frenético dos musicais da Metro. Até a bilheteira rói as unhas, torcendo pelo seu final feliz. Se não pela sua vontade, ao menos pela bilheteira seja feliz para sempre. The End.


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13 Junho, 2009

MAIS NÃO PEÇO


Eu olho para o seu retrato na carteira, em meio a esse Vietnam particular, e sinto o quanto tem valido a pena voltar para casa tendo morto e debaixo do braço o leão do dia, o troféu que lhe entrego em permuta de um sorriso, o costumeiro, não mais do que aquele protocolarmente aberto junto com as venezianas às sete da matina, sua hora predileta.

Não importa que no decorrer do período me falte o eixo pela pressão baixa e o discernimento para o que quer que esteja a um palmo do meu nariz: o que posso lhe assegurar é que sempre prevalecerá a devoção incondicional e espontânea, oferecida de bom grado para que as coisas continuem simplesmente assim, sendo o que até agora foram, pois mais não peço por não ter direito nem merecimento. Eu me contento com a janta escassa e racionada, uma beirinha que me caiba é o bastante, dá de sobra.

Que eu lhe seja provisoriamente útil como um calço de mesa é ideia a que já me acostumei, não tenho em mim qualquer pretensão além de compor a série B do seu time de soldados descartáveis. Escolhi assim quando lhe vi me vendo, com olhos mais curiosos que propriamente interessados, apenas acolhendo meu espanto e deixando governar sua vontade sobre a minha, sentenciando a sina que desde então vai se perpetuando. Suas esporas e botas de cano alto fazem verter o sangue, mas não machucam mais.

Mesmo que a você não diga muita coisa o fato de estarmos juntos, do marco zero espero que possa estar lembrada, com uma mínima ponta de nostalgia. Era então naqueles dias do começo, o reconhecimento tátil que permitia quando muito a mão na mão e uma ou outra palavra dita só no intento de dizer alguma coisa, não que houvesse precisão. No mais das vezes o silêncio era servido e se bastava, em tons de um cinza azulado. Quanto às urgências do sexo e outras do amor sabia por ouvir falar, ou das lições da rua ou das besteiras escritas e ditas em caráter de segredo nos banheiros de escola - repertório nulo quando dei pelo seu corpo, meses depois do reconhecimento inicial, pois nada do que fantasiei como sendo de proveito se encaixava no campo de pelos e carnes de verdade, o que para mim foi outro e envergonhado susto. E de que forma estranha você ria de mim e de minha imperícia, nem um pouco complacente com este aprendiz nos seus braços.

Em seguida vimos nós dois, se impondo no sítio da cama, um desajeito cerimonioso seguido por um modo todo seu de olhar o desenho da serra como se houvesse um outro e oculto contorno por trás dele. Coisas que ia percebendo e ruminando quieto após o seu cansaço, pressentimentos que não lhe contava para que nesse homem das trincheiras você não enxergasse um covarde cheio de dedos. O que seria uma injustiça – logo eu que saio à luta a despeito de inimigos tão mais fortes, ansiando uma comenda de bravura.

De espanto em espanto não restou para mim um palmo de conforto, o suficiente para que pudesse me sentir, um dia que fosse, num lar e na intimidade da mulher da minha vida – ainda que não seja nem de longe o homem que você imaginou para a sua.

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07 Junho, 2009

A SAUDADE DA CASA EM QUE NUNCA ENTREI


Ali hoje, e já há tempos, é o Banco do Brasil. Aquele que diz que é o Banco do João, do Carlos, da Helena, da Ritinha, do Zé. Ali ontem foi o palacete da Dona Lucina, a casa dos filhos Francisca, Mariquinha, Felipe, Henrique, Antonio e da penca de netos que alguns loucos ainda juram ouvir a algazarra no salão de jogos.

Ali hoje há filas de gente com a testa franzida e olhar distante, ansiando a campainha que chame por sua senha para amortizarem, com o pouco que pinga, o muito que devem. Ali ontem também havia filas, mas filas de gente com festa no rosto e nas vestes, que se formavam desde suas escadarias de mármore até ganharem as entranhas mais escondidas de São João, na procissão do Divino.

Quem tem um pouco mais de história para contar há de lembrar que bem ali, onde estão aquelas máquinas cuspidoras de dinheiro, a velha matriarca da Fazenda Matão acompanhava aflita a cotação do café no rádio capelinha, uma mão no seletor de estações e outra no terço, rogando forças não para manter a fortuna que tinha, mas para continuar dando amparo à vila de colonos que dependia dela.

Os que hoje passam com pressa e indiferença em frente ao prédio de blindex da Praça Armando Sales desconhecem o que se chorou e se riu enquanto ali era um lar, com panelas no fogo e compotas na despensa, lar que continuava lar de afeto e de aconchego a despeito da rica mobília, das desavenças políticas, das pequenas intrigas que cercam quem quer que habite uma mansão de vinte e oito cômodos.

Quem vê a agência bancária moderna, a dominar o quarteirão com todo o aparato de segurança, provavelmente não testemunhou o ranger do portão da frente, em madeira vermelha, que se abria com generosidade idêntica para um mendigo ou para o Juscelino Kubitschek. Nem lembra do Dr. Oscar a clinicar de graça ou recebendo porcos e galinhas em paga de partos, na época em que seu consultório ocupava um dos quartos do casarão.

No banco 24 horas, frio como moeda, já não se tem mais notícia da dama lusa em trajes negros, Dona Lucina para uns e Mandinha para outros, que há muito já estava na igreja enquanto a cidade dormia. A portuguesa que veio dos Açores no século dezenove, jeito austero e sotaque carregado mesmo após décadas de Brasil, só deixava a sua casa pela casa de oração. E embora lá de cima a entristeça ver a estranha metamorfose do cenário da sua vida, às vezes deve abandonar o cantinho de céu a que teve direito para vagar por seus domínios demolidos, zanzando entre um caixa e outro como se estivesse buscando empréstimo para a colheita de café. Talvez ao ler este texto ralhasse por alguma razão comigo, bisneto a quem nem conheceu. Mas ficar brava definitivamente não era do seu feitio. Por maior que fosse a farra das crianças no salão de jogos.



30 Maio, 2009

MANÉ, SAUDOSO MANÉ


Lembro como se fosse hoje que passava um pouco de cinco e quinze da matina quando ele me ligou dizendo que tinha despertado com o lampejo, transformado em ideia tentadora, que logo virou desejo irrefreável de dar cabo de uma vez da sua vidinha sem atrativo. Queria ir pra junto do Flávio Cavalcanti, do Santos Dumont, do Jack Estripador, do Mussum e de todos os outros grandes que já tinham ido. Não via mais sentido em continuar ocupando seu invólucro castigado e tão sem atrativo, ainda mais vendo tanta gente melhor que ele abandonando precocemente o posto nesse ingrato campo de provas.

Dizia o Mané:

“Trabalho numa máquina de moer carne, minha mulher há muito deixou de exercer qualquer influência na minha libido e eu acho um saco fazer a barba todo dia. Isso sem falar das pombas que só aliviam sua diarreia no capô do meu carro, do jeito azedo do vizinho e da inesperada cobrança complementar do IPTU, referente ao puxadinho que construí sem autorização da prefeitura e que acabou virando depósito para as tralhas de pesca do Lourencinho, primo desgraçado que ronca, fuça e é perito em aparecer de supetão pra filar a janta.

Já falei pra mim mesmo: olha pra trás, meninão. Conta até dez, chupa um halls daquele trinca guela. Nada como um halls extra forte bem chupado, se possível acompanhado de água geladíssima por cima, pra nos demover de decisões irrefletidas. Isso já dizia Danny F.Chesterfield, aliás com propriedade rara entre seus contemporâneos. O bom e velho Danny, idólatra da TV dos tempos em que domingo de manhã passava o programa do pastor Rex Humbard, “Imagens do Japão” e o “Caravela da Saudade”, que com seus fados levava aos prantos 9 em cada 10 donos de padaria no Canindé.

Estou aqui com o epitáfio prontinho. Está pronto em linhas gerais, ainda falta um acerto ou outro de ortografia e de colocação de vírgula. As seis alças do caixão já têm dono, e evidentemente você é um dos escalados. Pega numa perto do pé que o esforço é mais leve, a região da barriga deixo para uns parentes que tenho em baixíssima estima. Que eles sirvam pelo menos pra isso, já que nunca me emprestaram um tostão quando a lavanderia estava mal das pernas. Está tudo esquematizado, fiz um croqui em papel vegetal com as alças, puxando umas setinhas com o nome de cada um. Deixei na gaveta do criado-mudo, junto com umas outras orientações e providências que devem ser tomadas”.

Ameacei desligar o telefone, nauseado com tanta morbidez, mas ele dizia que ficaria na minha consciência se morresse de mal comigo. E continuava:

“Agora o que tá pegando é o jeito de liquidar a fatura. Estou aqui na cama caraminholando qual a modalidade mais prática e menos ortodoxa. Nada de ligar o gás, enforcamento na jabuticabeira, deitar na linha do trem, Ginsu na jugular ou lexotan com soda cáustica. Pensei em injeção de ar na veia, o modus operandi predileto dos nazistas no holocausto, o que me diz?”

Foi quando caiu a ligação, depois aconteceu o que todo mundo já sabe. A famosa reviravolta que o fez viver lúcido e sacudido até os 94, à frente do grupo de empresas que até hoje leva o seu nome.

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23 Maio, 2009

DROPS PATERNOS



Me corrija se estiver errado, mas tenho sentido você um tanto desiludido, mais cabisbaixo e indolente que o costume. Filho, não se deixe abater, você não tem motivos justificáveis para entregar a rapadura. Lembre-se daquele antiquíssimo ditado hindu, que o passar do tempo só reforça sua sabedoria e validade: “O espelho da vida é a sombra do infinito”. Nos momentos de desânimo e depressão, devemos nos agarrar ao bálsamo reconfortante destas palavras, que o seu padrinho, o palhaço Estrepolia, repete religiosamente antes de subir ao palco. Sabe, me sinto muito mais à vontade em falar assim com você, por bilhetes. Como alguém que não se furta em dar o ar da graça, mas tem horror de parecer inconveniente ou arriscar um cafuné em hora imprópria. Você compreende, é meu estilo. Seu avô, o príncipe dos malabares, também era assim.

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Ainda tem um pouco de mingau de maizena na geladeira, dá uma esquentada no microondas quando chegar. Domadores de leões como você não costumam prescindir desta iguaria, tão rica em complexo B. Meu garoto, não tente achar tanto sentido nas coisas que te disse ontem, quando conversamos a sós no picadeiro. É só a minha visão pessoal, que pode ou não ser considerada, dependendo do conceito que você tenha de mim enquanto pai. Ser pai é fácil, basta um momento de inconsequência ou de esquecimento na hora do bem-bom. Quero que a minha autoridade sobre você seja aceita pelo que digo e faço, não pelo que represento na hierarquia familiar. O fato de ser mais velho não significa que seja mais sábio que você ou que tenha me tornado menos louco com o passar do tempo. É mais do que notória a minha fama de zureta, e é impossível que tanta gente esteja errada ao meu respeito. Portanto, siga meus conselhos, mas com uma certa reserva.

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Esfrie a cabeça, literalmente: caia n’água, pegue uma piscina. Já tive lampejos mirabolantes entre uma braçada e outra, vale tentar. Estar desorientado em questões vocacionais é normal em sua idade, comigo não foi diferente. Antes de optar de vez pelo trapézio, fui corretor de ações da malfadada Fazendas Reunidas Boi Gordo, me embrenhei alucinadamente na venda de jazigos para cães e até uma fabriqueta de troféus e medalhas já passou por minhas mãos. Em todas estas investidas admito ter quebrado a cara – o que, contrariando todas as óbvias expectativas, jamais aconteceu comigo sob a lona de um circo. É, meu filho, a vida tem dessas coisas. O que parece seguro esconde grandes ciladas, e vice-versa.

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Pelo menos nos quinze ou vinte primeiros encontros, uma mulher só se sentirá segura em seus braços se seus braços não forem além do que ela julgue razoável. Entende o que quero dizer? Seja tolerante, extravase os hormônios solitariamente por enquanto. Uma garota que aceita carícias naquelas partes logo de cara não serve para ser mãe dos meus netos. Ainda mais em se tratando da filha da engolidora de fogo, aquelazinha de índole duvidosa. Vou lhe fazer uma confissão: só desembrulhei completamente a senhora sua mãe na noite de núpcias, e ainda assim depois de certificar-me que seus instrumentos de trabalho não estavam ao alcance da mão. Você sabe, ela era atiradora de facas no Stankowich, onde trabalhávamos na época. Bem, chega por hoje. Nos vemos amanhã, após o espetáculo.

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16 Maio, 2009

VESTIBULANDO


Que alívio, crenças e rezas não foram vãs. O além parece existir mesmo, nada indica que isso seja uma alucinação da anestesia.
Do outro lado estou só e nu. Nem asas nem túnicas translúcidas e afins, o que atribuo ao fato de ser noviço na função, prestando um vestibular que me dará uma vaga no céu, no inferno ou noutro paradeiro não catalogado pela Bíblia. Faltou, por enquanto, o que sempre disseram que havia: o túnel luminoso que puxa irreversivelmente o recém-presunto, os parentes que já se foram aguardando com bolo, guaraná e faixa de boas-vindas, a vida do lado da carne passando como um filme rápido enquanto desligam as máquinas e decretam morte cerebral.

Ao invés disso, eis-me aqui a poucos metros de quem fui, quase à altura do teto, feito astronauta num treino sem gravidade, sem noção precisa do que sucedeu e muito menos do que está por vir. Bóio no corpo, se é que assim ainda posso chamá-lo, e no entendimento. Vai acontecer o que está fadado e que não me cabe saber, embora sinta o poder insuspeito do arbítrio mais livre, que me permitiria, se quisesse, fechar os olhos e abri-los um segundo depois na ponte do Brooklin ou em Jacarta. Tão inédita quanto mágica, essa nova faculdade não me seduz como seria de se supor. Prefiro estar aqui em cima e assistir ao que farão de mim e do espólio quase nulo a ser em breve repartido.

A estranha rédea sobre a consciência reforça a desconfiança de que esteja ligado debilmente à minha carcaça, e viva agora um impreciso devaneio de que me livrarei em poucas horas, reassumindo o sujeito com CPF, RG e obrigações a cumprir. Ninguém me assegura que não seja isso, e essa ausência de governo e coordenadas me perturba. Mexem agora num tubo ligado ao meu braço, mas não vejo nenhuma tentativa de ressuscitação. A enfermeira anota alguma coisa na prancheta que nem tento decifrar, os óculos que usava parecem continuar fazendo falta.

Previsíveis providências a serem tomadas nos próximos minutos: avisar a família, preencher os prontuários de rotina, acionar o pessoal da remoção, retirar toda a tripa – inclusa aí a meia portuguesa/meia aliche devorada antes do acidente, completar o vazio das vísceras com algodão embebido em formol, costurar, vestir e meter o infortunado que vos fala (ou vos falava) num modelito clássico de mogno maciço. Cubro o rosto daqui de cima para não ver o rosto de baixo escondido até a testa com o lençol azul. “Near death experience”, uma vez entrei num site que falava sobre isso. Se retornar posso dar meu testemunho, já engrossando as estatísticas dos que quase foram. Mas pelo jeito fui mesmo, embora sem garantias de ter ido ao certo, estando assim até segunda ordem nesse lodo movediço.

A televisão do quarto fala sobre mim, mostrando uma foto antiga em que ainda tinha barba. Ou foi muito feia a causa mortis ou era famoso e não me recordo. A enfermeira cruza minhas mãos sobre o peito e aumenta o volume do aparelho para ouvir a reportagem, ao mesmo tempo em que a imprensa vai invadindo o quarto e disparando flashes.

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09 Maio, 2009

DELIBERAÇÃO


Tendo em vista que:

De acordo com os pressupostos da numerologia, John Lennon e Paul McCartney jamais teriam se cruzado nas ruas de Liverpool caso se chamassem John McCartney e Paul Lennon;

A leitura incessante de listas telefônicas, na forma como é comumente praticada pelos tocadores de zabumba, é considerada procedimento enfadonho pela maioria absoluta da humanidade;

A grosso modo, não se deve julgar quem quer que seja pela aparência, salvo em se tratando de concurso de beleza;

É perfeitamente plausível haver, entre o si e o dó, um intervalo musical não captado pela audição humana, mas sim pela dos gafanhotos;

Mestre Duña há de voltar para a redenção do empirismo em sua plenitude, consolidando o método da tentativa e erro como sustentáculo da ciência em seus variados ramos;

A falta de quórum para aprovação da lei que estabelece mudanças na concessão do auxílio-paletó acarretará em nova sessão plenária, em data ainda a ser determinada por instrução normativa;

Desde os tempos de Leogivildo, o visigodo mais enaltecido pela história, não se vê tanta incompreensão e intolerância permeando as relações humanas, incluindo entre as ditas relações o coito interrompido;

Há em geral nos retratos antigos a evocação de ocorrência que não volta, e que portanto é de escassa serventia a sua guarda e eventual contemplação;

Não deixa de haver certo risco no intervalo compreendido entre os movimentos de inspiração e de expiração dos seres vivos, notadamente os mamíferos;

A interceptação de corpos celestes em rota de colisão com a Terra vem sendo realizada desde os tempos da guerra fria, à revelia da alta cúpula do governo cubano;

Fica decidido, à luz dos fatos acima expostos, que não há mais nada a fazer a não ser solicitar o serviço de informações para saber aonde se dirigir ou que providência tomar.


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02 Maio, 2009


Uma piscada mais lenta que o normal, um micro-cochilo em meio à reta que teimava em inacabar e dou por mim com o carro quase ralando o guard-rail. Quanto em segundos durou o descuido é tão incerto quanto o que me fez acordar a tempo.

Estou indo para o abrigo tão antigo e permanente como o firmamento e o sentimento de dever cumprido após a missa. Lá ainda se trocam cartas e há mais que um ou outro de chapéu pelas ladeiras. A preguiça tem função e é exercida ritualmente, pede-se a benção e sente-se a mão de pai e de mãe com força de viga e de lei. É âncora de respeito, o que pai falou não se questiona. Da mesma forma ninguém desdiga o que mãe diz para ser feito, ainda que lhe falte uma beira de razão pelo avançado da idade.

Acelero para o oco do tempo atrasado, onde o asfalto dessa pista ainda não passou perto, meca dos centros de mesa de crochê, cucos e bolinhos de chuva, onde as mágoas da véspera saem na água do banho sem maiores dramas. Não levo nada além desta carcaça em descuido a pedir arrego, reza de proteção e cuidados redobrados. Lá ainda lembram de mim como o caçula de meu pai, no corpo novo que fui, e não serei eu a roubar-lhes a ilusão. Se não me reconhecerem, que vejam em mim um sujeito outro e distinto da imagem, agora sépia, de alguém com o cabelo em desalinho e o olhar tolo de quem não tinha noção do que teria de enfrentar.

Lá é um sempre que cismou de sempre ser, os incomodados que se mudassem, corressem para outras freguesias, despencassem dos penhascos e ganhassem rugas por esse mundo além-montanha, de onde nada de proveito haveriam de trazer. Quando muito esses zumbis, dos quais provavelmente eu sou o chefe, retornam trazendo o desespero dos anos idos longe dali e muito mal aproveitados, pois foram anos em lugares outros espelhando nesses lugares outros o casulo de nascença, a cidade das paredes que descascam mas permanecem paredes em seu vigor vitalício.

Limite de município. Falta pouco para o triunfal retorno dos vencidos e mutilados de guerra, aqueles que voltam sem medalha de bravura no pescoço. De soslaio os olhos passam pelo retrovisor, e por um instante os vejo sem papadas e livres da catarata que embaça a vista e o entendimento.

No lugar que não me aguarda com faixas de boas-vindas, vilarejo das coisas que são como se acostumaram, haverá decerto um povo arraigado em seu sossego a rotular-me forasteiro ou desertor, que ficará indiferente ao choro que não segurarei quando de novo embaixo da velha árvore.

Das últimas vezes, nesse trecho, não haviam lombadas no caminho, a bem dizer quase nem caminho havia, nem tantos carros, nem placas que falam de loções cremosas e hambúrgueres. Os velhos de então se foram e o neo-velho que chega encontrará, passado este sinal vermelho, o enigma das gerações que se sucederam sem que pudesse acompanhar. É o preço a ser pago, assistir ao sumiço das quitandas e alfaiates ao mesmo tempo em que se sente a perda de massa dos músculos e o fim como perspectiva próxima.

Engasga o carro. Veja se isso é hora de acabar a gasolina.


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25 Abril, 2009

UM PARA O OUTRO


Tá certo que ele não era nenhum conhecedor profundo do moderno cinema iugoslavo. Mas ela também não era nenhuma marchand francesa especializada na fase azul de Picasso ou nas esculturas de Rodin. Tá certo que ele não era nenhum master-franqueado do Instituto Kumon, com 25 unidades só no Centro-Oeste e ótimas perspectivas de expansão. Mas ela também não tinha propriamente onde cair morta, e se tinha não sabia o número da sepultura nem o cemitério.

Tá certo que ele não era nenhum prodígio musical, capaz de assobiar as 32 sonatas de Beethoven de trás para a frente e em ordem cronológica de composição. Mas ela também não arriscava nem o “Atirei o Pau no Gato” debaixo do chuveiro e sem ninguém em casa.

Tá certo que ele não era nenhum Tom Cruise, ainda que seu convênio médico cobrisse cirurgia para correção de astigmatismo congênito em grau severo. Mas ela também era um estrago natural à prova de photoshop, e estava a léguas de distância da última colocada no Miss Birigui 1978, edição do evento especialmente pródiga em mulheres corcundas e fora do peso.

Tá certo que ele não era nenhum espertalhão pronto a dar o bote, sendo notória sua semelhança fisionômica com Mister Bean – com a diferença que este último amealhou uma montanha de dinheiro com sua cara de idiota. Mas ela também não era nenhuma megera movida a terceiras intenções, e não consta na delegacia boletim de ocorrência envolvendo seu nome.

Tá certo que ele não era nenhum iogue indiano, evoluído espiritualmente a ponto de ingerir um basculante de estrume com um sorriso nos lábios, em piedoso sacrifício pelo bem da humanidade. Mas ela também não nascera Madre Teresa de Calcutá, e trocaria sem pestanejar sua alma por um naco de quebra-queixo, desde que com bastante gengibre.

Tá certo que ele não era nenhum exemplo de autoestima, se considerarmos as três ou quatro vezes em que foi encontrado com o gás ligado e a cabeça dentro do forno, além de outras tantas em que o flagraram ouvindo a Perla no volume máximo (e no banheiro, onde o perigo é maior devido ao eco). Mas ela também não tinha motivos para nutrir por si mesma a mais remota simpatia, tanto que uma não olhava para a cara da outra quando se cruzavam no espelho.

Tá certo que eles não eram nenhum casal modelo. Ainda assim apaixonaram-se, casaram-se e previsivelmente não foram nem um pouco felizes. Mas também, antes mal acompanhados do que sós.


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18 Abril, 2009

PRIMEIRO CONGRESSO INTERESTADUAL DOS PROFISSIONAIS DE TELEMARKETING


DESAFIOS E PERSPECTIVAS DE UM SETOR EM VIGOROSO CRESCIMENTO E EM VIAS DE EXTINÇÃO. DE 23 A 27 DE JULHO DE 2009, EM BARRA DO PIRAÍ - RJ.


Programação – 23/07/2009

FÓRUM DE DEBATES
Regulamentação e valorização profissional do operador de telemarketing versus lei que cria o Cadastro Estadual para Bloqueio do Recebimento de Ligações de Call Centers. Como contornar esta contradição?

PALESTRA DO DIA
O best-seller “O Segredo” e a Lei da Atração aplicados aos Call Centers e afins. O verbo vender dando sentido à vida e fundamento ao universo.

Coffe-break

MESA REDONDA
A lei que estabelece em 60 segundos o tempo máximo de espera para atendimento telefônico nos SACs.
“Um minuto de tolerância não é atendimento. É gincana, meu rei” – Depoimento de Carlinhos Girafanti, atendente em Salvador – BA.


Programação – 24/07/2009

FÓRUM DE DEBATES
Gerundismo: promovendo o controle eficaz do vício. Estaremos discutindo, debatendo, analisando e propondo alternativas para os compulsivos. Workshop com demonstração prática de casos crônicos com animadoras perspectivas de regeneração.

PALESTRA DO DIA
Crise econômica mundial: vamos fazer uma limonada com este limão. O desemprego crescente significa mais gente em casa para atender o telefone, e é preciso que o profissional do setor saiba tirar proveito desta preciosa oportunidade.

Break sem coffee (efeito da crise)

MESA REDONDA
O “tu-tu-tu” x a revolucionária tática “sim-sim-sim”: saiba porque concordando três vezes consecutivas com seus argumentos as chances de fechamento de negócio são 96% maiores.


Programação – 25/07/2009

FÓRUM DE DEBATES
O método “Vendendo pelo Cansaço” e seus 8 passos: abordagem, apresentação, explanação, argumentação, chateação, apelação, insistência e rendição.

PALESTRA DO DIA
Novas tecnologias: 72 músicas de espera inéditas para o seu negócio, incluindo “Bilu Teteia”, “A velha debaixo da cama” e aquela uma do Gonzaguinha.

Coffee-break:
Para café puro, tecle 1
Para suspirinho de padoca, tecle 2
Para bolacha com goiabinha no meio, tecle 3
Para suco aguado com sanduíche de metro de anteontem, tecle 4
Para voltar ao menu principal, tecle 5

MESA REDONDA
Profissional de telemarketing também é gente: como reclamar ao PROCON se o sujeito que atende o telefone desrespeita o seu direito de insistir.


Programação – 26/07/2009

FÓRUM DE DEBATES
Exibição de documentário sobre o call-center da Golden Selecta Minnesota Trading, que instituiu a jornada ininterrupta de 72 horas com administração intravenosa de nutrientes substituindo as pausas para refeições e, consequentemente, as posteriores necessidades fisiológicas.

PALESTRA DO DIA
Vendendo Fanta Uva como quem vende Coca-Cola: ao contrário do que se pensa, esquimós compram geladeiras. E estão ávidos por novos modelos.

Coffee-break

MESA REDONDA
Tele-assédio sexual: lidando profissionalmente com as inevitáveis “cantadas”.
Situações adversas: procedimentos a serem adotados quando o dono da linha diz que o dono da linha está pescando em Mato Grosso e só volta daqui a 3 meses.


Programação – 27/07/2009

FÓRUM DE DEBATES
Televendas com ligação tarifada: quando deixar o cliente esperando é mais negócio para a empresa.

PALESTRA DO DIA
Ocorrências extremas: mantendo a serenidade e a polidez quando o interlocutor sugere tomar bem no meio do olho de determinada parte anatômica. Descrição de um case de sucesso que terminou em casamento, com a presença e o testemunho dos nubentes.

MESA REDONDA DE ENCERRAMENTO, COM ENTREGA DOS CERTIFICADOS DE PARTICIPAÇÃO.
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11 Abril, 2009

ENCOUNTRY O SUCESSO


Valdivino & Laudislano são um estouro nas paradas. Um sucesso talvez maior que mil estouros de boiada, coisa que nenhum dos dois viu de perto na vida, embora se proclamem cantores sertanejos como Januário & Vespertino, com seus cinturões dourados comprados numa excursão ao Mississippi. Dupla que por sua vez, a exemplo de Furacão & Hurricane, está com a agenda de shows lotada até julho de 2010 em feiras agropecuárias onde não há agricultura e muito menos pecuária. Talentos que não ficam nada a dever a Christóvão & Christino, que quase largaram a estrada com ameaça de gangrena nas pernas, fato idêntico ocorrido a Juanito & Ranulfo, por causa da compressão das calças excessivamente agarradas.

Essa maciça e inconteste consagração popular faz lembrar os trinados rouxinolescos de Joracy & Jurabel, guardiões da nossa legítima música de raiz, ainda que a única raiz que conheçam seja a raiz forte servida no restaurante japonês caríssimo que frequentam nos Jardins. Os mesmos Jardins que abrigam os empresários artísticos de Tiago & Risério, Suzano & Bebeto e Wilson José & José Wilson, reis absolutos do cancioneiro arranca-toco, sem que jamais suas caminhonetes 4x4 cabine sêxtupla tenham passado perto de um caminhão de bóias-frias. Frutos consagrados da roça como Alexandrino & Dito da Tulha, com suas taperas e ranchinhos fincados em Alphaville, suas aparições compradas nos programas de auditório e suas cotas de 48 páginas/ano de fotos no Castelo de Caras.

Nenhum outro duo, todavia, tem levado tão a sério o trabalho de preservação das tradições caipiras quanto Caio Morotti & Feliciano, cujas reboladinhas country e solinhos de banjo resgatam às novas gerações o folclore de Kentucky e Massachusetts. Ídolos que sofreram forte influência dos inimitáveis Osmar & Arsênio, dupla com apresentações-surpresa e merchandising garantidos até a edição 15 do Big Brother Brasil, aquele reality show roteirizado pela equipe de redatores da Rede Globo.

O fato é que o Olimpo da autêntica moda de viola é pródigo de estrelas. Só mesmo alguém com estrume na cabeça poderia deixar de reconhecer a contribuição decisiva de Bruna & Torrone, Aladin & Lâmpada Maravilhosa e Andrezinho & Rodrigão para o sucesso dos leilões de gado empreendidos por esse Brasil sem porteira. O caviar russo e as doses cavalares de Blue Label ali servidos de nada adiantariam sem os megashows dessa turminha rural – que verdadeiramente embala e alavanca os lances mínimos de 500 mil reais por uma colher de sopa de sêmen de zebu premiado.

Meu amigo, eu diria que esse é o lado maravilhoso da chamada globalização: o Texas fica em Pindamonhangaba e vice-versa. Dá orgulho ver os nossos jecas e matutos tornando-se tão idênticos a um farmer anglo-saxônico, ainda que só na roupitcha. Cabe a nós valorizar e levar adiante essa bandeira multicultural. Às vezes ouço falar, meio por alto, de outros nomes menos conhecidos: Tonico & Tinoco, Tião Carreiro & Pardinho, Cascatinha & Nhana, Pena Branca & Xavantinho. Confesso minha ignorância. Seriam novas duplinhas country? Se tiverem mesmo talento, logo logo estarão na TV. É esperar para ver.

04 Abril, 2009

NOTURNO EM DÓ


Ai meu Deus, o sono que carecia, nenhuma sombra de gente dando sinal de chegar. Virou-se para o outro lado. O toque fresco do lençol grosso de linho, o bafo dessa noite quase dia. A franja do cobertor, as cócegas no queixo, a pena de gastar a vida assim nesse sei lá.

- Mamãe, papai, Oscar, vocês prometeram que não iam demorar. Eu contava as horas, eu roía tanto as unhas. Fazia como os presos, cada dia um risquinho na parede.
Esse nada que não cessa, o baile de debutantes, bocas e colos, gravatas e vestidos longos. Era a última coisa que conseguia lembrar, o baile.


- Não resisto mais um dia. Quanto quero vocês todos, se soubessem. Parecia agora não ter ossos, uma larva sobre o leito. Flash, fast rewind. Alguém de chapéu panamá chegando, o couro do cinto, os vergões e a vergonha. Tinham-lhe aplicado uma injeção, quando deu por si estava ali, coisa solitária e quase sempre insone. Deus, de novo. O padre chegando para a extrema unção. Os olhos que a terra há de comer já podiam ver os vermes avançando sobre as íris. De novo o baile e seus cacos liquidificados. Éter e clorofórmio, o lança no lenço, lá pelas tantas a big band. Foi assim, ou assim lhe pareceu. Para chamarem uma ambulância era porque estava mesmo na pontinha do penhasco. Via caras que vinham, olhavam e voltavam dando lugar a outras caras, todas desconhecidas. Nem papai, nem mamãe, nem Oscar. Cadê vocês, onde um tiquinho de alento, uma placa indicativa?


Aquela mulher a quem nomeara mentalmente de Izildinha Sobe-e-Desce, embora tivesse um enorme “Frida” escrito no crachá. De pegnoir, archote na mão e diamantes cavalares no pescoço, fazia rabanadas e ia servindo-as com chocolate quente às esculturas do jardim. Gargalhava, escarnecia e expunha-se ao escárnio. Os anões de cimento, cinzentos e mofados pela chuva em seus lombinhos. Elementais sem bucho e suco gástrico, sem hálito ou papilas gustativas, comendo freneticamente como se o mundo fosse acabar daqui a pouco. Pensava agora em anotar o que ocorresse aí por diante. Fazia sentido: as palavras disparando o gatilho da memória, um passo à frente dos risquinhos na parede. Mas temia que o amontoado de relatos não guardasse relação com o que a mente arquivasse. Seria como olhar para o barbante no dedo e se perguntar: isso era pra lembrar do quê?
Em posição fetal, espera. Não demora e vem o homem com o copo d’água, o comprimido, aquela camisa que aperta, o banho de sol.
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28 Março, 2009

PROPRIEDADE


- Tem namoradinho rondando Lídia Isadora, moço bem apessoado.
- Quê?
- É o que lhe digo, não queria trazer preocupação para o senhor meu marido, mas...

Franzindo o cenho, o coronel tranca o ferrolho. Fecha questão em definitivo. É o sinal de que não pode, a filha envolta em vestidinho branco é imaculada até disposição em contrário e expressa ordem do dono, e essa ordem não virá. Filha da Igreja antes de ser sua filha. Essa não tem jeito, é prometida pra Jesus. Quase natimorta, escapou Deus sabe como. Fez promessa se vivesse, era dever cumprir. Nunca um desejo de carne havia de tirar o sossego desse corpo magro de menina. Não da minha menina, que essa é pra convento de clausura. Vai comer moela às vezes e jejuar quase sempre por amor de Nosso Senhor, assim seja e há de ser, ou não me chamo Juvenal.

De domingo, a imbuia dura onde ajoelha, veludo roçando a maçã lisa do rosto. A paz da capela, o padre escuta e não encara.

- Não que eu tenha pecado, padre, mas no descuido deixei entrar no juízo uns pensamentos descarados. Um moço vem querendo coisas, olha fundo no olho, se achega sem convite.
- Menina, você tão nova. Que mais?
- Não sei se conto ou não conto, não virou acontecência, ficou no quase. De todo modo...

Pai vem vindo, barulho de molho de muitas chaves. Coronel de porte e pose de dono de capitania. Pisa mais forte que o costume, sinal de que a vara de marmelo vai cantar.

Demorou nadica. Uma vergastada, duas, três. Acolhe calada o castigo, os olhos revirando sem chance de revide ou de explicação.

- E você, mulher, vigie de perto e me avise de abuso, que boto jagunço no rasto do desaforado.

Tem duas mães, a menina. A de verdade, zanzando desnorteada, sem ação de serventia. E tem a Dita, ama de leite cheia de simpatias e rezas, mãe postiça que não deixa ao deus-dará.

- Passa um bife, Dita, ela tem fome.
Trincheira providencial, a Dita, na hora de evitar surra de rabo de tatu. Se acontecia de não conseguir, vinha com a salmoura, junto com afago e colo.

Tirava o avental molhado e chegava acudindo de toalha felpuda numa mão e bacia de lenitivo na outra, e era bom ser filho de criação da Dita e estar inteiro sob a tulha de seus braços. Assim, nesses bocados, a sova ia caindo mais fácil no esquecimento. Lenta mágoa desmanchando pela noite na fazenda, também lenta, onde só grilo se escutava no adiantado da hora.

A toda purinha, atrás dos óculos de fundo de garrafa, pedia a Deus o perdão ao pai, defensor do feudo e da honra da família. Que dessa porteira pra dentro não passe nem a miséria, nem a desgraça, nem a tentação. Se a ira divina se abater sobre essa roça, que seja eu a levada para purgar o pecado que quase nem cometi.

Na varanda, o coronel não se ressente, fez o que pai que se preza tem de fazer nesses casos. Pica o fumo e balança na cadeira, pensando no preço da arroba do boi.

Assim acontecia de ser sempre, naquela lonjura que não se chega, margeando o cafundó.


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21 Março, 2009

MUAMBEIROS UNIDOS JAMAIS SERÃO VENCIDOS!


Da Reportagem Local

A greve dos vendedores ambulantes prossegue em seu décimo sexto dia, sem perspectiva de consenso entre os representantes da categoria e as autoridades constituídas.

O sindicato dos muambeiros, camelôs, sacoleiras e similares reivindica a licença para a venda de produtos da chamada linha branca (assim denominados por não possuírem nome ou marca fantasia em suas etiquetas de identificação), a poda imediata de um abacateiro no meio do camelódromo, o aumento do número de banheiros químicos de 3 para 27 e a reintegração da “Banca do Lorpa” ao circuito alternativo de compras – banida recentemente pela Guarda Municipal por comercializar Viagra genérico e cartilagem de lambari como sendo de tubarão.

Jorginho Bicicreta, há doze anos estabelecido ao lado da referida banca, falou à reportagem. “O Lorpa é gente boa que só vendo, tem um filho com problema, uma mulher que costura pra fora e uma sogra que nem o tinhoso merecia. Se a situação continuar desse jeito, ele disse assim que volta lá pra Três Corações. O camelódromo sem a Banca do Lorpa não é mais o mesmo, é uma loja âncora, chama gente pacarai (sic)”.

A Guarda Municipal, por sua vez, argumenta que a idéia era lacrar a barraca até que se concluísse o processo investigatório, que comprovaria ou não as irregularidades. De acordo com o Capitão Xexéu Vieira, a lacração não foi possível pelo fato do estabelecimento não possuir portas, paredes, tapumes ou qualquer outra estrutura física que lograsse o intento. Então a alternativa foi o recolhimento das instalações desmontáveis e a apreensão dos lotes do Viagra meia-bomba e das cartilagens de tilápia. Questionado pelo nosso repórter Paranhos se as cartilagens não seriam de lambari, conforme noticiado extra-oficialmente, o Capitão esclareceu que o exame microscópico revelou serem as mesmas de Tilapia Galilaea, até porque os lambaris não são dotados de cartilagens em sua constituição.

Caso não tenham atendidas as suas reivindicações, os autônomos não-estabelecidos ameaçam com a legalização plena de suas atividades e mercadorias comercializadas, emitindo as respectivas notas fiscais em três vias e procedendo ao recolhimento de todos os tributos em vigor nas esferas municipal, estadual e federal. Jorginho Bicicreta argumenta: “Aí é que eu quero ver a porca torcer o rabo. Que pai de família hoje consegue comprar DVD, pen-drive, notebook, carregador de pilha e boneca que faz xixi com o preço incluindo tudo quanto é imposto? Heim, me fala??? Nós cumprimos uma função social. Veja bem, o muambeiro e a sacoleira hoje precisam os dois serem ambos igualmente valorizados”.

Ao tomarem conhecimento da greve, ambulantes de várias cidades da região desembarcaram em massa na estação rodoviária e começaram a ocupar os espaços deixados pelos camelôs grevistas. Um deles, que não quis ser identificado, pronunciou-se: “Precisamos aproveitar rapidamente esse nicho de mercado. A população pode ficar tranquila que continuará tendo o que tinha antes, com maior variedade e preço ainda mais baixo. Essa greve dos camelôs locais mostra a força do cartel da muamba, que só quer defender seus privilégios e impedir a livre concorrência”.


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14 Março, 2009

AD ETERNUM


Eis que de novo me deparo com a nada consoladora ideia de que o sistema solar é espantosamente semelhante a uma estrutura atômica, e que a diferença não passa de uma questão de proporção e de velocidade. E se a Terra for um dos elétrons de um dos milhões de átomos de uma ponta de lápis sobre a mesa de um escritório, numa outra e gigantesca Terra?


Largo Newtons, Galileus e Sócrates deitando postulados pelos cotovelos e me agarro ao manto de Abraão e ao cajado de Moisés, no pasto verde das verdades simples. Ovelha, deixo que me conduzam por dogmas que se bastam, convertido ao fato de que existem mesmo as moradas celestes, onde nem traça ou ferrugem, epidemias ou bandidos roubariam o sossego dos descendentes de Adão. Onde, indefinidamente vivos, habitaremos gratos. Cada família em sua casa de grossas paredes fincadas no éter. Mansões onde, após banquetes generosos, tem-se o sagrado direito à sobremesa predileta, que por também ser eterna se reconstituiria a cada mordida, para a glória das gulas.


Pais e mães tomando perpetuamente conta de seus rebentos, com muitas rugas a menos por saberem que suas crianças serão poupadas no juízo final, mesmo porque o juízo final não será tão final assim. A vida se espreguiçando infinito afora, o beijo mais sorvido se alongando até a exaustão, se exaustão houvesse no mundo lá de cima. Todos volitando com trechos de salmos impressos nas túnicas, Beethoven escorregando num tobogã clave de fá, nenhum passarinho preso, sinos aos montes dobrando e marcando a hora de lembrar que nunca é tarde.


Tempo e espaço se liquefazendo, Van Gogh de velocípede a ziguezaguear por latifúndios de girassóis. Cada um se lambuzando de sua Pasárgada privativa, desobedecendo zombeteiramente as recomendações médicas, sem noção de comedimento e sensatez, metendo os pés pelas mãos, fazendo tudo o que faltou ser feito quando envolto pela carne. Se convencer de que a Terra é plana, de que aconteceu o dilúvio, de que tudo foi criado em exatos 6 dias, sem nenhuma hora extra ou percalço que desanimasse o Maioral. Ter a confiança dos que se sabem amparados, e saltam sem se preocupar se o paraquedas vai abrir.


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07 Março, 2009

CACA - CENTRAL DE ATENDIMENTO AO CONSUMIDOR ALVORADA


Ficamos gratos pelo contato estabelecido através do “Fale com a gente” do site alvoradaonline.com.br. É graças a manifestações sinceras e isentas como a sua que podemos aperfeiçoar os nossos produtos e corresponder às expectativas de uma extensa e cada dia mais diversificada legião de consumidores.

O senhor queixa-se da aspereza e consequente desconforto ocasionado pela nossa versão standard, comercializada exclusivamente em fardos de 32 unidades e à venda nos atacadões Kiprecinho e Valemax, nossos distribuidores autorizados na Serra da Bocaina, região em que o senhor reside.

Quanto à aludida fricção entre o produto supracitado e a parte anatômica tão reiteradamente mencionada em sua reclamação, lembramos que um nível de abrasividade mínimo é indispensável para que as suas necessidades sejam atendidas sem perda de performance – entendendo-se, no caso, o termo “necessidades” em ambos os sentidos.

Em nosso setor de pesquisa e desenvolvimento, nos balizamos por um coeficiente de atrito adotado mundialmente pelos melhores fabricantes e homologado como parâmetro pela Organização Mundial de Saúde.

Lembramos que também disponibilizamos em nossa linha as versões de folhas duplas, extra macias, absorventes e com essência de lavanda, nos modelos “Light Pétala”, “Veludão” e “Carícia”, todas com o selo AA (Anti-Assadura) da Sociedade Brasileira de Estudos Avançados em Dermatologia.

Passemos à sua próxima queixa, esta um pouco mais técnica mas igualmente infundada. É preciso esclarecer que a perda resultante da porção de produto que permanece aderida ao cilindro de papelão está dentro da margem tolerada pelo Inmetro, como estabelecido na norma 186.450/78B. Sugiro que compare os nossos índices (20 a 22,5 cm) aos da concorrência e tire suas conclusões. De antemão, podemos afiançar que a nossa marca é a que oferece a mais vantajosa relação custo-benefício.

Lembrando suas próprias palavras, de que a porção de produto entre um picote e outro “não dá nem para o começo”, vale ressaltar que tal medida atende aos requisitos do cidadão médio, em condições normais de uso e sem alterações significativas em seu metabolismo. Nada impede que se lance mão de duas, três ou mais porções a cada utilização, sem que tal fato fira as normas do Código de Defesa do Consumidor ou represente abuso de poder econômico.

No campo “Críticas e Sugestões” o senhor lança a ideia de colocarmos no mercado uma categoria de produto com histórias em quadrinhos, segmentadas por assunto, público e faixa etária, tendo em consideração o arraigado hábito da leitura no banheiro. Sua sugestão é válida e aparentemente inédita em âmbito mundial, merecendo cuidadoso estudo de viabilidade pela área competente. Contudo, a estratégia de “continua no próximo rolo” seria melhor aplicada a contos e romances, já que uma história em quadrinhos com mais de 30 metros, e ainda mais com continuidade, seria demasiadamente enfadonha para o usuário, ainda que este sofra de constipação intestinal crônica.
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28 Fevereiro, 2009

MANGIARE


A mesa posta é cama feita. Lombos e salames vão sugerindo indecências, o sol de mezzogiorno deflora as fogazzas. O ventre e a vitela ao mesmo tempo, um mesmo pasto. Carnes em lanhos atiçam o quase incesto, a desonra. Não tarda o ataque, por baixo da toalha, às coxas esguias. Ele a belisca, é a senha de que a aguarda no caramanchão.


- Que a nonna não nos veja.

- Ela ora sua novena, se abana e reza, reza que só ela... terminou mais cedo o almoço, daqui a pouco começa a tarantela e ninguém mais escuta niente.

- Perdido, immondo. Somos primos.


Um peito mínimo na palma da mão, o outro dá-se al sugo. Più perfetta Sofia. Pingo de vinho na blusinha branca, sorve-se ali, de pé e na pressa, o cálice da tentação.

- Sporcaccione maledeto.

- Cala que te arranco a língua, tão feita pra se enroscar na minha, un vero desperdício.

- Animal, svergognato. Madonna mia.


Primo e prima, due al dente. Pronto, é manchado o brasão virtuoso dos Tartini. Além do falatório ao longe, o único sinal da famiglia é a fumaça do cachimbo do nonno, entre um bocado e outro das carnes se comendo no caramanchão.


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21 Fevereiro, 2009

CIENTISTA DE ABADÁ


Digerido o mingau de maizena das dezoito e trinta, reparti o cabelo ao meio, calcei minhas botinas e rumei em desabalada carreira à grande festa de Momo.



Em meio à balbúrdia generalizada, ouvi algumas pessoas ao meu lado proferirem reiteradamente o termo “cheirar lança”. De imediato meu sistema cognitivo associou a expressão a um aborígene aspirando sofregamente seu instrumento de caça, e tal quadro afigurou-se-me exageradamente surreal. Não dei maior importância, ainda que considerasse estranho aqueles rapazes rindo sem motivo aparente, e prossegui embalado nos folguedos, circundado por um manancial de regiões glúteas bem proporcionadas.


Foi quando percebi assomar em minha direção, a uma velocidade média que pelos meus cálculos girava em torno de 4,6 metros por segundo, uma engenhoca denominada Trio Elétrico. Tentei vislumbrar onde exatamente se achavam instalados a trava, o vidro e o alarme, mas não avistei senão um amontoado de tocadores de tambor sem camisa e uma cantora com as pernas de fora posicionados acima do veículo, que se assemelhava a um palco ambulante e arrebanhava multidão crescente conforme ia transitando. Por Galileu, qual seria o sentido daquele rito profano?


Cismava nessas conjecturas quando um alto-falante próximo anunciou que dentro de meia hora teria início o desfile das escolas. Ora, pensei, o 7 de Setembro já se fora há mais de 5 meses; além do que não via naquele cenário de perversão e sodomia o ambiente propício a uma parada cívica, com alunos de escolas estaduais e municipais saudando o dia da Pátria.


Importante frisar que, ainda que empreendesse todos os esforços para permanecer imóvel e em atitude meramente contemplativa, aquela procissão de excomungados me empurrava a contragosto. Era por assim dizer arrastado, em efeito análogo ao refluxo do mar quando estamos com as marolas batendo na altura das canelas, em Praia Grande ou São Vicente.


Artefatos circulares de papel colorido e rala espessura, denominados confetes, eram arremessados sem mãos a medir na direção dos meus olhos, como se os foliões quisessem deliberadamente levar-me à cegueira a todo custo. É bem verdade que nem todos os acima designados confetes atingiam o sistema ocular – 16% se alojavam entre a mucosa da boca e a laringe e outros 7,8% pousavam inertes sobre o copo de leite batido que empunhava ao som do “Alalaô”. Considere-se nesta estatística uma margem de erro de três pontos percentuais para mais ou para menos, estabelecendo como desprezível a resistência do ar entre a posição de arremesso e o alvo.


Questões outras também eram por mim analisadas, como a fadiga e a dilatação de corpos e materiais, o poder de abrasão das fantasias de califa quando roçadas com as de odalisca e a ação mensurável das forças centrífuga e centrípeta nos chamados cordões carnavalescos. Por volta das três e meia da madrugada, uma mulher de aparência polaca e olheiras fundas – provavelmente causadas por falta de sono reparador – agarrou-me à força e beijou-me demoradamente, passando em seguida às minhas mãos um lenço umedecido e um cilindro de vidro translúcido com líquido não identificado em seu interior, trazendo um rótulo onde se lia “Universitário”.


Sem entender bem o porquê do presente, pressionei a válvula, muito semelhante à de um extintor de incêndio. Imediatamente rondaram-me dezoito elementos vindos não sei de onde, todos com lenços nas mãos e olhando ávidos para meu pequeno tubo transparente. Estupefato, perguntei ao grupo em que poderia ser útil. Uma fração de segundo depois, um dos indivíduos me socava a cara enquanto outro me furtava o cobiçado “Universitário”, como se o apetrecho fosse a chave do paraíso. Acordei na delegacia, onde me encontro agora em companhia de nativos, cujas peculiaridades comportamentais merecem um detalhado estudo antropológico.


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14 Fevereiro, 2009

DEMASIADO HUMANO

Atlas levava o mundo nas costas, e eu inadvertidamente acabei me transformando na versão atualizada do personagem mitológico. A diferença é que Atlas não tinha cobrança, nem a mídia no encalço, nem uma crise que pegou o atlas – desta vez geográfico - inteiro no contrapé. Tudo bem, eu quis que fosse assim, eu escolhi esse objetivo e exauri as forças que tinha e as que não tinha para alcançá-lo. Fiz acordos, abri concessões, renunciei a mim para ser o que agora sou.


Como eu já imaginava, é mesmo muito solitário ser tão absurdamente poderoso. Solitário a ponto de você não se conceder o direito de pensar um pouquinho com seus botões sem que de imediato apareça um arsenal de costureiras para pregá-los.


A uma entidade messiânica como eu não se dá a prerrogativa de estar a sós com quem quer que seja, nem comigo mesmo. Esta é a questão, ou talvez a contradição: a solidão do poder é tamanha que não abre a possibilidade de se ficar sozinho, nem para ir ao banheiro. Você é isolado do cotidiano feito um vírus no laboratório, mas junto com 150 cientistas que não tiram o olho do tubo de ensaio.


Sou o ícone de uma sociedade que não admite que eu me socialize espontaneamente e seja simplesmente um homem de bem, vacinado, protestante e pagador dos meus impostos. Imagino que haja milhares de pessoas pelos quatro cantos do planeta rezando neste momento pelos meus futuros atos. Só eu não posso ter carne e osso e pedir por mim - alguém certamente estará na escuta, ainda que seja inaudível a prece.


Eu posso criar e destruir fronteiras com a mesma caneta que, se dependesse de mim, estaria agora fazendo palavras cruzadas, o jogo da velha ou qualquer outra bobagem que não me forçasse a mudar a vida de ninguém. Confesso que durante o pronunciamento de ontem, enquanto falava solene e pausadamente para a câmera, tinha a mão direita dentro da gaveta de minha mesa. Segurava firme a foto em que estou no colo de mamãe, era uma maneira de me sentir forte, como se o retrato fosse uma âncora a me salvaguardar no mar intempestivo.


Sou um emblema, um deus de ébano pretensamente redentor dos males da humanidade, e transformei a rotina anônima e sem ostentação de minha mulher e de minhas filhas no filé dos paparazzi. Abro meu laptop e tenho vontade de deletar sem ler, como se fosse spam, o mais recente relatório confidencial enviado pelo Secretário de Defesa.


Queria muito, como todo americano praticante de golfe e comedor de pasta de amendoim, jogar paciência durante o expediente sem ser visto pelo chefe. Pois juro, como jurei sobre a Bíblia outro dia, que meu sonho de supremo mandatário é ter um chefe a quem seja obrigado a prestar contas de meia em meia hora, que perca as estribeiras comigo, que me xingue de incompetente e corpo-mole, mas que pertença a uma instância superior à minha e me diga o que deve e o que não deve ser feito. Estar no topo do organograma pode muito bem ser pior que estar abaixo da linha de miséria. Náuseas de tudo e ânsia de ser Barack, e só Barack de novo.



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07 Fevereiro, 2009

A HORA H

Homero na mesa 8. Helena na mesa 12.
Homero enfim está de volta. Helena não está à espera.
Homero saiu e ganhou mundo. Helena nunca arredou pé.
Homero guarda as cartas todas. Helena jogou todas fora.
Homero pode explicar tudo. Helena não quer saber nada.
Homero só pede um minuto. Para Helena, agora é tarde.
Homero olha para ela. Helena finge que não vê.
Homero acende um cigarro. Helena odeia fumaça.
Homero atende o celular. Helena retoca a maquiagem.
Para Homero, ela ficou bem de óculos. Para Helena, ele anda mal vestido.
Homero pensa: duas décadas. Helena acha que foi ontem.
Homero é reticente: Peixes. Helena é incisiva: Áries.
Homero acena a um velho amigo. Helena puxa a cinta-liga.
Homero chama outro whisky. Helena mexe o Dry Martini.
Homero lembra do dia em que a viu pela primeira vez. Helena não esquece do dia em que tudo terminou.
Homero não está mais na bolsa dela. Helena continua na carteira dele.
Homero ganhou doze quilos. Helena, vinte e uma estrias.
Homero se rói de aflição. Helena não move uma palha.
Homero tem seu telefone. Helena não vai atender.
Homero, cheio de apetite. Helena, pronta a vomitar.
Arrependido, ele só teve uma outra. Pra ir à forra, ela teve quantos quis.
Homero quer dizer a Helena que promete se emendar. Helena jura que a emenda será pior que o soneto.
Homero está muito abatido. Helena está a fim de abater.
Homero anda atrás de um norte. Helena quer desnortear.
Homero insinua. Helena deixa claro.
Homero almeja. Helena se esquiva. Homero, vassalo. Helena, senhora. Homero acata. Helena ataca.
Homero contém. Helena extrapola. Homero quer deleite. Helena, deletá-lo. Homero ata. Helena desata.
Homero gagueja. Helena triunfa. Homero, a Sonata Patética. Helena, Carmina Burana. Homero jaz. Helena, jazz.
Homero, peteca. Helena, squash. Por ele, os dois voltavam no tempo. Por ela, seria tempo perdido.
Homero, o sonho. Helena, o ato. Homero, o ninho. Helena, a arribação.
Homero sem ação, sem noção, sem tábua de salvação que o remova do embaraço. Helena segura, liberta, com alta há muitos anos do analista.
Homero se sentindo adoecer. Helena quer que doa a quem doer.
Homero pulsa. Helena o repulsa. Homero pede paz. Helena, em pé de guerra.
Homero recorda seus seios. Helena anseia vingança.
Vacilante, Homero caminha até ela. Altiva, Helena olha com desdém.
Homero a tira pra dançar. Helena atira pra matar.


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31 Janeiro, 2009

A SÓS


Olhares que se cruzam, dela e do cão. Do ponto de vista do cão, o olhar somente - o literal pousar de olhos sobre alguém ou alguma coisa. Para ela uma zona de conforto na arrumação de si, como se fosse possível um cessar-fogo entre os neurônios. Poderia não ser um bicho, mas uma xícara, um poste, o que via não era absolutamente o que enxergava. Não havia a consciência de olhar o cão, nem no cão a de saber-se observado. Cara a focinho, aquele era o tempo presente dos dois. A indolência que sentia lembrava talvez o fastio que se tem em casa de mãe após a janta generosa. Isso era nostálgico e reconfortante, a sensação do território conhecido, o nada além da posse precária daquele momento de pálpebras arcando. Vovó morta, envolta em seda, o coro de filhas de Maria na trilha sonora, entregando junto ao padre o corpo à terra. Vovó se foi, é fato, ficou o cão e a urgência do que fazer dele. Chove a fina e mesma chuva sobre finados e vivos, um bolero gira na vitrola arcaica. Delírios, xô que já é tarde. Deixem-na a sós com seu cão.

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24 Janeiro, 2009

TREMA DESEMPREGADO, MATA-BORRÃO INVÁLIDO, DEDAL DESALOJADO


- Eu caí.

- Caiu onde, de que jeito? E nem tá machucado, do que tá reclamando?

- Não ouviu falar que acabou o emprego do trema? Então, estou na rua.

- Fica tranquilo, trema. Pra tudo tem solução nessa vida.

- Dedal, amigo velho, como é que eu posso ficar tranquilo se tranquilo não tem mais trema? Estou liquidado – e liquidado sem trema.

- Tem certeza?

- Tá na regra, pode conferir.

- Conforme-se, veja você o que fizeram comigo. Eu era encontrado em vários modelos nas boas lojas do ramo. Vivia nas mãos das moças mais lindas, que passavam o dia bordando e tocando piano. E hoje, olha minha situação. Se nem costurar mais se costura, quanto mais usar dedal. Meu caso é mais grave que o seu, porque minha obsolescência é em escala mundial. Você ainda pode se mudar pra Alemanha, por exemplo. O que tem de trema por lá não está escrito, todos muito bem empregados. Concorda comigo, Mata-Borrão?

- Eu acho que nesse caso tem que usar a criatividade. Se ao invés de deitado você ficar de pé, vira dois pontos. E até onde eu saiba, os dois pontos continuam em pleno vigor, certo? É o tal do jeitinho brasileiro, meu camarada. Eu mesmo, pra te falar a verdade, também não sei como fica minha situação, se fico ou não com o hífen. Também tanto faz, até porque ninguém mais escreve “Mata-Borrão”. Pior: não há quem escreva mais a mão, muito menos com caneta-tinteiro. Maldito computador, matou de vez todos os borrões! Agora, mudando de assunto, Dedal: eu nunca entendi o fato de você ter esse monte de furinhos se foi inventado justamente pra evitar os furos.

- É, acho que temos aí um paradoxo, Mata-Borrão.

- Chega de conversa mole, gente. Podemos, os três juntos, botar a cabeça pra funcionar e achar uma utilidade digna pra nós.

- O setor de brinquedos me parece um filão interessante. Brinquedo se compra por impulso, a meninada inferniza os pais até que eles entreguem os pontos. Como Mata-Borrão posso me transformar em gangorra para soldadinhos e índios de Forte Apache. E você, Dedal, pode virar copinho na mesas das casas de bonecas. O que acham?

- Péssimo, Mata-Borrão. Péssimo. Vai ver se a molecada de hoje brinca de Forte Apache, de gangorra e de casinha de boneca. Ficam direto na frente do computador, véio, se liga.

- Exatamente. Ficam batucando o dia inteiro no teclado, e o Dedal pode se arrumar aí. Poderemos lançá-lo com o pomposo nome de Protetor Articular para Digitação, prevenindo LER e tendinites diversas. Quanto a mim, saibam que minha despedida do mercado editorial será nos manuais que andam imprimindo agora, com a grafia antiga e a atual, depois da reforma. Tá certo que vou aparecer só na coluna da grafia velha, mas já é alguma coisa. A saideira, né...

- Você disse saideira, e me veio um insight redentor para o seu caso. É que saideira me lembrou bebida, que me lembrou Caninha 51, que me lembrou...

- Lembrou o quê, criatura?

- O trema permanece em Müller e em outros nomes próprios. O fabricante da Caninha 51 chama-se Companhia Müller de Bebidas. Pronto. Você será impresso nos rótulos de milhões de garrafas de pinga, e ainda vão te mandar pro mundo inteiro. Tá empregado, é só enviar seu currículo com foto recente pra verem que você é o trema mesmo.

- É... boa ideia (sem acento agudo).


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17 Janeiro, 2009

EM BRANCO


Só sei dizer que a carta veio parar na minha mão sem remetente nem destinatário. Mas estava, que diabos, na minha caixa de correspondência. Abri e encontrei três folhas sem nada escrito. Dei de ombros: não sabia de quem vinha, também não era para mim, que importava? Poderia ser um código de alguém para outro alguém, uma senha que significasse alguma coisa que só a ambos faria sentido. Mas por que na minha porta, se não era eu nem uma nem a outra parte interessada? Outra hipótese seria uma espécie de intervenção urbana, obra de teor filosófico e performático de algum artista underground, querendo dizer que nem tudo tem de ser de alguém para alguém e com algum propósito específico. Um manifesto pelo resgate do nada às nossas vidas, nesse mundo over de informação. Passei cola novamente no envelope e coloquei a carta na primeira caixa de correio que vi na rua.

Ao trabalho, ao trabalho. Três reuniões naquele dia, duas delas sem previsão de término nem de conclusão prática. Quando Daniel explicava os dezesseis gráficos de pizza no flip-chart, Letícia adentrou à sala e me entregou um envelope, branco como a maior parte dos envelopes, mas de uma alvura já minha conhecida. Não havia dúvida: era a mesma carta. De novo. Reconheci pelos sinais da recolagem e pela re-absurda falta de remetente e destinatário. Como, de volta para mim? Eu lá tenho cara de posta restante dos Correios e Telégrafos?

Roí as unhas e parte dos dedos, ansioso para o fim da reunião. Parti como um raio à sala de Letícia, para saber quem tinha entregue a carta a ela. Foi embora mais cedo. Indisposição. Joguei a carta no lixo, mas antes marquei com a caneta um x no canto inferior direito do envelope, na parte do remetente. Assim poderia identificá-la irrefutavelmente, caso o milagre voltasse a ocorrer.


E ocorreu. Findo o expediente, no caminho para o estacionamento algo me chamou a atenção. Na vitrine da loja de departamentos, a TV transmitia ao vivo o sorteio de uma promoção qualquer. Uma loira de pernas de fora retirou uma carta da montanha. Lá estava ela. A câmera deu um zoom no pequeno x do canto do envelope, como se quisesse mostrar a mim, e só a mim, que a coisa era mesmo indestrutível. Vi a mulher lendo e os lábios se mexendo, anunciando o nome do contemplado ao lado do auditor do concurso. O ruído do trânsito não me deixou ouvir o nome que só eu desconhecia, o mistério que só a mim parecia ser mistério.


Um drink para arrumar as ideias e adivinhar uma lógica para aquilo. O garçom me trouxe, junto com o segundo uísque, um envelope que a pessoa da mesa oito pediu para me entregar. Olho para a mesa oito. Ninguém. Só a carta, a mesmíssima, de novo no meu colo. Ok, eu a levaria para casa. Não dava mais para fugir um do outro. Guardei-a com cuidado dentro da Bíblia, no hall de entrada do apartamento. A página com o Salmo 91 estava em branco, assim como as outras. Na estante, os demais livros todos em branco. A agenda, ao lado do telefone, em branco. Os álbuns de retrato em branco. A certidão de nascimento e a identidade em branco. Então olhei pela janela e vi o néon com o nome da companhia de seguros ficando ininteligível. Percebi que as coisas escritas se extinguiam, sem função. Até mesmo os nomes nas folhas de cheques e as marcas nas portas dos refrigeradores. Me ocorreu que Letícia poderia estar morta e eu não ficaria sabendo, pois no dia seguinte os jornais provavelmente não trariam obituários. Nem qualquer outra notícia.


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10 Janeiro, 2009

VOYEUR


De novo a música recorrente, a de costume em ziguezague na cachola.

Você e seu rosto de quem só acalenta bons presságios, não deixa margem pra que se enxergue um primeiro anúncio de ruga, sua carne de pêssego se decompondo um dia é coisa sem cabimento. Afago uma outra chance de te ver no desaviso, sem que saiba que te espio entre lençóis, tão você mesma. É assim que gosto, devassar você no quarto. Você zapeia a TV e eu te zapeio aos centímentros, sem controle. Dias de vinho e rosas como os que tivemos e guardamos escondidos da razão, como se guarda borboleta ou selo raro, quando outra vez?


Detida para averiguações, algemada por mim. Vamos à reconstituição do crime que cometemos ao deixar que houvesse entre a gente distância e compostura em demasia, o trato cerimonioso que se impôs a contragosto. Retomemos o que foi, vestidos de nudez. Andiamo via, na asa dessa aragem que vem agora da janela.


E nesse assédio à intimidade alheia, que é impróprio chamar de alheia em se tratando de você, quero ficar até render-me pasmo e adormecer, pele na pele, mãos nas mãos. Discreto e insuspeito como um voyeur que faz bem feito o seu serviço, mas zeloso e sentinela, atento aos cães rondando a madrugada. Durma. E saiba que não quero para você só os sonhos que pediu a Deus, mas os que Deus pediria a Deus se houvesse um Deus acima dele.


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03 Janeiro, 2009

DO PAU OCO


Já não foi a primeira vez que a câmera de segurança da fábrica de santos e anjos de gesso flagrou o inspetor de controle de qualidade e uma loiraça gesseira, toda coberta de pó branco, fazendo o que estava no Gênesis em posição ainda não catalogada pelo Kama Sutra. Espionando diariamente os dois excomungados, em serões que se estendiam das seis e quinze da tarde às nove e tanto da noite, Genaro, do serviço terceirizado de circuito de TV, junta mais um flagrante ao gordo dossiê e aguarda o momento certo: a nomeação do inspetor a gerente, “pela conduta irrepreensível no exercício de suas funções”.

Mas Genaro estava longe de ser a única testemunha da sacrílega safadeza. Das estátuas, todas viram. Exceto 16 São Judas que ainda estavam sem os olhos.


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- Eu quero entrar pro ramo, Pai Zóim. Diz aí com quanto é que eu tenho que morrer pra abrir uma tenda com tudo nos conformes, daquelas de cair o queixo.

- Aí já começa mal, fio precisa entender que dinheiro vem sozinho, por merecimento. Não tem que correr atrás dele. Sejamos simples de coração...

- Que é, meu pai, tá com medo da concorrência? Sou pequeno, não nasci pra Pai Zóim...


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Temos em estoque e para pronta entrega ampla gama de bolas de cristal nos diâmetros de 9 a 25 polegadas, com ou sem efeitos luminosos, estrelas e luas holográficas, 100% transparentes e com mecanismo giratório discretamente acoplado debaixo da mesa do vidente. Funcionam com quatro pilhas, não inclusas. Mas tome cuidado para que os clientes não vejam o “Nadir Figueiredo” na base da bola, fatal indicativo de que a mesma não é exatamente de cristal.


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Cortamos um zero na mensalidade dos cursos por correspondência de numerologia: de 99,90 por 9,90, em 3 vezes de 3,30. É sua chance de começar o ano com o pé direito e muito dinheiro no bolso. Faça de 2009 o seu número de sorte.


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O que se observa é o que podemos chamar literalmente de círculo vicioso. O fabricante do baralho dissemina, querendo ou não, a maldição do jogo. Perdendo o que tinham e o que não tinham nas mesas de pano verde, os desesperados procuraram uma saída com as videntes do tarô, cujas cartas são fabricadas pelo mesma empresa do baralho. É ganho na diversão e no arrependimento. A coisa toma outro rumo nos tempos de bonança econômica. É quando pouca gente joga e consequentemente quase ninguém corre depois atrás do tarô. Aí o jeito é alocar o parque fabril à produção de baralhos de mico preto, para as raríssimas crianças que se dispõem a trocar o Playstation 3 por esse passatempo idiota.


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Se existe alguém que mereça respeito e medo nesse mundo, esse alguém é o dono da fábrica de patuás. Por maiores que sejam seus calotes, desvarios administrativos, apropriação indevida de verbas trabalhistas, ninguém quer correr o risco de uma maldição ou “coisa feita” em represália. E assim, entre falcatruas mil e respeito nenhum a quem quer que seja - funcionários, fornecedores, leis e poderes constituídos - , ele amplia mês a mês o volume produzido e diversifica o seu mix, que já inclui figas de madeira de reflorestamento e galhinhos de arruda cultivados em hortas hidropônicas.


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Novas seitas pululam descontroladamente, fora do alcance da razão e sobretudo do fisco em suas instâncias diversas. Com elas surgem inovações tecnológicas que jamais passaram pela cabeça de Matuzalém, Barnabé, Zebedeu e seus contemporâneos, como a maquininha coletora de donativos por transferência de titularidade, ou seja, basta que o fiel insira o cartão de crédito ou débito para assegurar em suaves parcelinhas o seu pedaço de céu.


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20 Dezembro, 2008

BOM PRINCÍPIO


Sou o seu leiturista de água. Você não me vê nunca eu nem bato na porta nem nada, mas eu leio direitinho o seu relójo uma vez por mês e sou amigão dos cachorro, trato tudo eles que nem gente. A caixinha de natal é o momento cristão e bem-vinda de coração e alem do mais ajuda na leitura certa o resto do ano. Data da próxima leitura e entrega do ano bom: dezessete do corrente, tenho o crachá pessa que eu mostro. Agradecido Zezão em ritimo de gingobel

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Não se confunda com outros que fazem passar-se por nós, os seus lixeiros de todos os dias inclusive feriado e finado. Por isso pedimos e meressemos o bom princípio. Somos os lejítimos Janelson, Totonho, Rudisson e Rixacleiderman (o popular Rixa). Se outros baterem, faça que não escuta e espere nós passar (lembramos que passaremos dia 23 de manhã como costume).

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Desejamos um feliz natal
E um ano novo muito agradável
São estes os sinceros votos

dos seus coletores de lixo reciclável


Não se esqueça do nosso bom princípio. Faremos a coleta amanhã.


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O senhor ja parou pra pensar, bem como sua(s) dignissima(s) família(s), como seria sua vida sem ver as oferta do supermercado e do varejão, pois é muito sem graça que seria sem os folheto que eu deixo na caixa de correspondença. Fico feliz com o presente vosso pode ser moeda.


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A boa notícia pra mim vai ser receber uma caixinha bem gorda. Conto com você do mesmo jeito que você conta comigo pra receber o seu jornal de todos dia.

Ari, o entregador

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Fui eu que cubri as féria do Ari, no mês 6 do corrente. Espero ganhar pelo menos o valor de um doze avo do tanto que você vai dar pra ele.
Esse é o desejo do Jonas, o entregador que vem no lugar do Ari nas féria e tamem quando ele bebe muito e não concegue levantar cedo.

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Sou o dono da gráfica rápida que fez os cartões. Espero que o ano que se inicia comece magnífico e termine espetacular e aproveitamos o ensejo para divulgar que o milheiro de cartão de visita está em promoção especial de 49,90 obrigado.

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13 Dezembro, 2008

"FELIZES PARA SEMPRE" UMA OVA!


O sujeito dá vida à gente, cria aquela história maravilhosa, diz que todos viveram felizes para sempre, põe um ponto final e se arranca. Nunca mais volta para ver o que aconteceu depois às suas indefesas criaturas, no mundo do faz-de-conta. Ora, quem põe filho no mundo tem responsabilidades a honrar. Como é que pode um autor se comprometer com a posteridade e colocar sua credibilidade em jogo, fadando seus personagens a um destino cor-de-rosa sem dar a eles meios para isso? Felizes para sempre, essa é boa...


Vejamos o drama do Prático, o porquinho precavido que construiu a casa de tijolos. Como o conto de fadas tinha que terminar logo, o suíno se viu forçado a correr com a obra e uma semana depois a casinha tinha infiltração, três grandes rachaduras que iam do chão ao teto e um fiscal da prefeitura todo dia batendo na porta, atormentando o proprietário por causa do Habite-se. Tão logo tomou conhecimento do infortúnio, o lobo voltou à casa e nem precisou soprar para que viesse abaixo. Em dois minutos já estava com os três leitões debaixo do braço. Pôs Cícero para engordar no chiqueiro, Heitor foi alocado nos afazeres domésticos da casa avarandada do malvado e Prático foi obrigado a travestir-se de veado e ganhar a vida com ofícios pouco familiares, entregando ao lobo todo o michê do dia. O curioso é que perante a opinião publica o lobo ainda posa de benfeitor, por ter tirado os porquinhos da indigência e dado a eles um abrigo digno. Dizem inclusive que fundou uma ONG, chamada “Lobo Bom”, que se dedica a difundir pelos reinos mais distantes os ideais da filantropia e da solidariedade.


Mas é preciso admitir que sorte pior teve a Cinderela. Antes que a tinta do original da história secasse sobre o pergaminho, começou o calvário da heroína. Horas após o suntuoso casório, quando o príncipe foi dar um cata na moça pra fazer neném, o salto do sapatinho de cristal esquerdo espatifou-se a caminho da cama, depois de patinar num resto de brigadeiro jogado ao chão por um convidado mais porco que Heitor, Prático e Cícero juntos. Além do cristal do sapato, quebrou-se também o fêmur da delicada Cinderela.


A forçada quarentena da moça, devido à cirurgia para colocação de 16 pinos na perna, obrigou o fogoso príncipe a aplacar os hormônios junto a um sem número de donzelas do reino. Sem sex-appeal aos olhos do marido, Cinderela passou a ajudar as faxineiras reais na varrição e no enceramento do salão de baile. Hoje faz doces para fora, com a abóbora que sobrou da carruagem. Tenta com seu advogado tornar sem efeito a autuação da vigilância sanitária, que após análise bacteriológica julgou a referida abóbora imprópria para consumo. Enquanto aguarda decisão judicial, diversifica sua produção com outras qualidades de doces. Só não aceita encomendas para brigadeiros, por motivos óbvios.


Estes são apenas dois exemplos, dentre muitos que poderia citar, da orfandade a que nós, personagens, estamos submetidos. Abrace, leitor amigo, a nossa causa. Não caia no conto de fadas!


Assinado,

O Patinho Feio, que voltou a ser feio após 14 gloriosos dias com jeitão de cisne.


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06 Dezembro, 2008

O MELHOR DA FESTA


É esperar por ela. Assim o velho ditado, assim Priscila deitada. Olha pela janela grande do quarto e vê um cinza chumbo empurrando no céu o carneiro de nuvens. Não demora e a chuva vai regar as bostas das vacas lá no morro, que gratas pelo frescor retribuirão com cogumelos a quem quiser colher, chapéus de sol que dariam cores e sons insuspeitos à festa de logo mais. Isso se Priscila fosse de se alucinar. Qualquer uma menos ela, aluna de internato, sem chance, nem vinho de missa conhecia. A uma mulher dessas bastaria uma taça de espumante leve para destravar um vagão de cismas e magoas. No caso dela a lucidez já era, a seco, a perda do juízo e o delírio extremo. Estava há meses a 220, trêmula. Mas a festa daria jeito nisso. A festa prometia e ela acreditava.


Busca Priscila a si mesma na cama. Não acha. Já tentou o Google? O que o Google não acha, não existe. Se o Google não achou Deus, Deus inexiste. Google talvez seja Deus, sendo Deus uma busca como muitos dizem. Se julga Priscila um mosaico de desenho incerto, definido a esmo, sem traçado prévio. Ao resto do mundo o merecido estrago, todas as maldições juntas do Antigo Testamento. Que a ira divina varresse tudo, poupando apenas deleites pequenos mas insubstituíveis, como tentar adivinhar o que teria de almoço ou espreguiçar em fronhas frescas pra espantar o mormaço.


Cadê os headphones? Ouvir música até perder-se em meditação profunda, talvez aquele movimento mais lento da Pastoral, iria bem hoje como nunca enquanto a hora não chega.


O que passou não volta por nada e será sempre muito melhor do que o que é. Sua mecha de cabelo adolescente, guardado no porta-jóias, será infinitamente mais sedosa e interessante que esse grisalho que chega dizendo que veio de vez, para o resto da vida. Mas deixa ele vir, nunca será um susto tão grande quanto o daquele dia em que teu pai, Priscila, te pegou fumando no quintal, lembra? Fumando pela curiosidade, não pelo vício ou por achar charmoso. Um cigarro é um corpo estranho no canto da tua boca sem malícia.


Ela ouve a água passar pelo latão da calha, misturada com a música do Roberto Carlos tocando no vizinho. Ele também vai à festa. Todos vão à festa. No quarto o cheiro de pastilha de eucalipto insiste. Gripe mal curada, quer estar inteira para logo mais.


O que sente agora, partindo do estômago até a lua mais próxima, é como um cordão de prata e néon azul, que Ludmila chamaria de perispírito. Agora é o exato instante em que o mormaço é vencido pela aragem do morro, que sem querer acabou trazendo o cardápio do almoço, agora não mais surpresa: omelete acebolado. Mas comerá só um pouco. À noite tem a festa.



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29 Novembro, 2008

CABINES DE NATAL


Naudisléia, cobradora de cabine de pedágio. Vandercleyson, porteiro de prédio. Namorados, falam pelo celular na noite de 24 de dezembro.


- Né mole não, amor. Todo mundo enchendo a cara, se entupindo de uva passa e eu aqui, plantado nessa cadeira com meu radinho. Luzinha de Natal pra mim é esse painel piscando com os número dos apartamento, compreende? E ainda tem que prestar atenção em tudo pra nada estragar a festa dos bacana.


- E eu não sei, Vandercleyson? Cê ainda tem o rádio pra escutar, aqui nem isso eles deixa. Nós rala e o povo se mandando pra praia, com os porta-mala cheio de malancia e peru.


- Daqui a pouco, que nem igualzinho todo ano, um ou outro desce com um panetone na mão, aquele seco e sem gosto que ninguém quis, que sobrou da cesta da firma, pra me entregar com um vinho bem sem-vergonha. A Dona Letícia do 67 até uns ano pra trás mandava um pratinho com umas fatia de tender, coberto com papel toalha. Das vez vinha também pudim de noz, empada de massa podre. Mas agora faleceu-se, a coitada. Nesses dia aqui no prédio fica tudo eles bonzinho, rindo e desejando boas festa. Daqui um tempo começa a chegar os carnê do IPTU e vira tudo bicho de novo. Ninguém olha mais na cara, até vim o Natal outra vez.


- Ah meu nego, liga não. Mudando de assunto, eu acho memo é que a gente anda muito precisado de um diazinho de xamego e vadiação. Só nós dois, pensou? Aí depois eu ainda fazia um macarrão caprichento... Seu recibo, moço. Boa viagem.


- Sabe, amor, aqui tá tocando aquela música que fala “Pobrezinho, nasceu em Belém”, ói só que mundo pequeno, Naudisléia, o Menino Jesus também é lá de Belém do Pará... vai ver a minha mãe até conhece a família.


- Peraí que eu não tô te escutando, caminhão barulhento demais, sô. Fala mais alto, mor... É sete e quarenta, moço... tem quarenta centavos, pra facilitar o troco?


- O quê?


- Não, tô falando com o motorista pra vê se tem moeda. Pronto, continua, bem.


- Tava falando do Cristo, conterrâneo nosso...


- Não tô entendendo patavina.


- Quer que fala mais alto, é?


- Não, essa história de conterrâneo eu não entendi nadica.


- Deixa pra lá. Até que hora vai o serviço aí no pedágio?


- O ônibus vem pegar nóis às duas e meia da manhã, aí já vem a moça do outro turno. Daí só pego de novo dia 26 às dezoito e trinta.


- Naudisléia, espera um pouco, güenta aí que eu tô falando com o doutor do 43 aqui no interfone. Então, doutor, tem um pacote embrulhado pra presente que deixaram aqui na portaria pro senhor. Ahn... ah, não sei o que é, não senhor. Chegou faz uns par de hora viu, um crioulinho de motocicleta que veio trazer. Sei... tá certo, depois o senhor pega aqui comigo.


- Mas esse interfone não pára, heim?


- Então, Léia, eu fico pensando na vida injusta que a gente veve. Como é que você, vendo tanto carro passar o dia inteiro na tua frente, tem que andar de ônibus, eu queria entender essas coisa que o homem lá de cima deixa acontecer, mesmo em noite de Natal, que é aniversário dele. Podia dar um refresco só hoje, que era bem merecido, né não?


(Campainha)


- Ô meu Deus, outra entrega... um instantinho, Naudisléia. Alô, Seu Afrânio? Tem encomenda aqui de leitão, dois cupim e mais uns saquinho de farofa com miúdo, pode mandar subir? Ah, e veio junto uma pet daquelas de 2 litro e meio de guaraná. O quê? O pisca? Ah, então, deixa eu explicar pro senhor. É que o síndico falou assim que é pra eu desligar os pisca tudinho depois da meia-noite, pra não gastar muita força, compreende? Qualquer coisa o senhor fala com ele. Ô Léia, tá me escutando? O que eu ia te dizer é que eu acho que cê tá trabalhando demais, moreco. Doze hora e meia sem descanso, cheirando esse óleo dísio... eles abusa demais docê. Tá certo que o sirviço aqui no prédio não é nenhuma maravilha, mas pelo menos não estrago com a saúde, compreende? Ih, olha só, tem um Papai Noel dos gordo aqui na frente da guarita falando hohoho e dizendo que vai distribuir bala. Cada figura... não, quê isso Papai Noel, vira esse negócio pra lá, calma... ai... ai... Naudisléia, me vinga... Naudisléia, dá o troco!


- Seu troco, moço.


- Fica pra você, querida, caixinha de Natal.


- Ô, coisa boa. Brigado. Vai com Deus e boas festa.


- Então, Vandercleyson... Vandercleyson... fala comigo...



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22 Novembro, 2008

RECANTO DA PAZ


Antes de mais nada, é nosso dever informar que vocês não estão num Hotel Fazenda, como o nome pode supor aos distraídos ou àqueles mais apegados às fraquezas da carne. Apurem os sentidos e perceberão que não há boi algum mugindo, nem sabiá cantando, nem cheiro de torresmo pururuca frito no fogão de lenha. Saibam os senhores e senhoras que se encontram no paraíso, passaram de onde estavam para melhor e é bom que aceitem logo isso para que seu processo de adaptação seja menos traumático. Nossos enfermeiros e assistentes sociais não agüentam mais repetir a mesma história para cada um que chega aqui. Portanto, queimemos etapas: vocês bateram as botas, isso é um fato.


Embora a população na crosta terrestre cresça exponencialmente e já esteja na casa dos 6 bilhões, no cômputo geral há muito mais mortos que vivos. E é um reconfortante consolo lembrar que os seres humanos mais interessantes são aqueles que já estão por estas bandas – os grandes gênios, os maiores heróis nacionais, ídolos de bandeiras ideológicas variadas, entes queridos, amigos e colegas que deixaram saudades. E quem ficou lá embaixo, não demora muito e vem para cá também. É só uma questão de tempo. Eternamente falando, de pouquíssimo tempo.


Aos suicidas, lamentamos o inconveniente de decepcioná-los. Existe vida após seu ato extremo, e não há nada que vocês possam fazer para reverter essa situação. O inconformismo diante de sua nova realidade não levará a nada, não adianta se jogar pela janela de seus aposentos celestiais. O máximo que pode acontecer é vocês voltarem para cá e recomeçarem a leitura deste quadro de avisos.


Tentativas de amotinamento e de retorno ao vale de lágrimas de onde vieram serão imediatamente sufocadas pelos superiores de sua ala. Amantes de sexo, drogas e rock and roll serão gentilmente forçados a se adaptarem à castidade, à abstinência e às harpas e corais de querubins, que só lhes farão bem ao espírito – lembrando que o espírito é a única coisa que lhes resta.


A enorme legião de beatlemaníacos poderá deliciar-se com shows diários de George Harrison e John Lennon em nossa praça principal. Solicitamos aos mesmos um pouquinho de paciência até que a banda se complete. O que ocorrerá em breve, pois Paul Mc Cartney está com 66 e Ringo Starr fez 68. Considerando que os dois vivam até os 100, dentro de pouco mais de 30 anos o slogan “Beatles Forever” deixará de ser uma utopia. O mesmo se aplica aos fanáticos pelos Rolling Stones, que a despeito de sua língua de fora e sua simpatia pelo coisa-ruim, farão turnê por aqui logo logo, reintegrando finalmente o Brian Jones ao conjunto – nosso hóspede desde 1969.


Orações por intenção de suas respectivas almas serão detectadas por nossas estações de captação vibratória e enviadas em tempo real para seus fones de ouvido, cujo controle de volume, graves e agudos encontra-se na parte interna da asa esquerda dos senhores. Já as orações-spam (aquelas genéricas, formuladas indistintamente para o bem de todas as almas) não serão enviadas, por serem muitas e perturbarem o descanso eterno de que são merecedores.


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15 Novembro, 2008

SIX O'CLOCK


Eu poderia começar dizendo que o sol do horário de verão britânico entrava coado pelos vitrais da Abadia para pousar solene na tumba da Rainha Mary II. E assim o faço, por mais romanticamente descritivo que seja. O spalla da Orquestra Filarmônica Real repete outra vez a passagem mais difícil do concerto, aquilo definitivamente não fora escrito para amadores.


Na seiscentista monarquia, quantas vezes a Mary infante teria atravessado a nave do templo, para mais tarde casar-se, coroar-se e entrar pela derradeira vez no monumento gótico, aos 32, num suntuoso ataúde. Em outra ala, no Poet’s Corner, Dickens vara o tempo em sono eterno, possivelmente escoltado pelo avarento Ebenezer Scrooge e seus fantasmas. O eco do andar de um Beefeather vem trazê-lo de volta ao violino. Então empenha toda a alma num vibrato, pensando no tio-avô que definha não muito longe dali. Talvez fosse seu último Natal. Apesar do rosto pouco vincado, da mão forte de veias saltadas, da voz rouca ao pedir para passar o pão à mesa envolta em aromas de velas e sopas, tudo indicava que não tornaria a ver os fogos de artifício anunciarem o Ano Novo sobre o Tâmisa.


“Mantenha o violino afastado do sol, pois o calor faz a madeira rachar ou descolar”. O conselho do velho mestre dos tempos de conservatório ia e voltava em sua mente como o hipnótico tema do Adagio. Soa a última nota, em uníssono com o violoncelo de Edwin. Westminster é muda, pode-se ouvir o pousar da mosca entre duas teclas do órgão de tubos. É muda e assustadoramente triste a Abadia àquela hora, que os católicos chamam de Ave Maria.


Suas orelhas eram grandes, demasiado grandes para não serem notadas e odiadas por Anne Elisabeth. Ela jamais se interessaria por um orelhudo de dentes tortos. Turistas e mais turistas, às levas. Estrangeiros que já viram tudo na cidade e aparecem por ali nessa tarde quase noite, para roubar a concentração do ensaio disparando seus flashes, mesmo sendo proibido. Façam o sightseeing bem longe, comam fish and chips, corram afoitos com seus mapas para a roda gigante ou o Palácio de Buckingham, longe da real e absoluta treva que vem vindo, a treva só plenamente compreendida pelos súditos nativos da rainha. Eles são de Massachusetts, Iowa e Connecticut, seguem deixando cascas de amendoim sobre os restos mortais de quem ergueu a Londres mais sublime, posando no sarcófago de Newton como quem tira fotos com o Pateta e o Pato Donald. Dobrem o valor do ingresso, please, quem sabe assim cai pela metade o número dos abutres.


Em pizzicato dançam seus dedos e seus medos, na forma de mínimos elfos. Ele vê nas quatro cordas os quatro inconfessáveis sonhos desfeitos, os quatro planos futuros forçosamente adiados e as quatro vezes, só na última meia hora, em que bendisse mentalmente a névoa, os tijolos à vista, a hipoteca paga em dia e a velha e boa xícara de chá a lhe esperar de madrugada em Notting Hill.


Apesar do adiantado da hora, voltou à pé para o apartamento, repassando mentalmente o trecho massacrante da partitura e imaginando o interior do chalé que alugou em Greenwich para ocupar sozinho no fim de semana. Com uma plástica nas orelhas, quem sabe da próxima vez conseguisse levar Anne Elisabeth consigo.


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08 Novembro, 2008

EM DEFESA DE UM ADMINISTRADOR INJURIADO


Creiam-me: José Denárdio da Figueira Paranhos é inocente. A acusação maldosa de que tem sido vítima explica-se pela indisfarçável inveja de seus adversários, em face do que fez e ainda fará por nossa terra.

Imputam-lhe como crime a compra de 2,5 toneladas de canjica sem licitação. Ora, senhores, não estamos falando de concorrência pública para aquisição de mísseis, turbinas para hidrelétricas, cápsulas espaciais e outros itens de pouca importância e custo unitário irrisório, tão irrisório que a própria sociedade se envergonharia em investigar os meandros de compra. Falamos de canjica e seus essenciais derivados, e do caos que poderia advir com sua escassez. Daí ser plenamente justificada, neste caso, a dispensa de licitação, até porque um único fornecedor demonstrou suficiente competência técnica no manejo e distribuição do insumo precioso aos entrepostos públicos.

E como é precioso. Dentre miríades de aplicações cotidianas, podemos citar a farinha de canjica enriquecida com ferro, vitaminas e ácidos graxos, comprovadamente mais eficaz que o óleo de fígado de bacalhau no combate às hipovitaminoses A e D. A canjica em flocos, processada, embalada e distribuída simultaneamente pela Canjesp, Canjerj, Canjemg, Canjesc e Canjenorte às escolas de suas respectivas redes de ensino, com ação clinicamente demonstrada no incremento da memorização de números de telefone, incluindo DDD e independente do prefixo da operadora. (E aqui abro um parêntese para louvar a canjica como instrumento de integração nacional e de desenvolvimento de nossas telecomunicações).

Continuando, citemos a canjica em pasta, que utilizada em conjunto com a fécula de mandioca gera poderoso grude para colagem de pipas, papagaios, pandorgas, maranhões e outras incontáveis denominações popularmente atribuídas a esse artefato tão estimado pela gurizada. Temos ainda a canjica moída e desmembrada em suas moléculas e átomos, recentemente aprovada pelo Ministério dos Esportes para utilização como antiderrapante em barras assimétricas. E, logicamente, a canjica in natura, largamente empregada como substituta do feijão para marcar os números sorteados nas cartelas dos bingos devidamente regularizados.

Tão rica é em possibilidades esta nossa glória verde e amarela que nada menos de 14 laboratórios farmacêuticos multinacionais pelejam junto à OMS a quebra de sua patente, argüindo como justificativa os bilhões de potenciais beneficiados ao redor do globo com seu manancial de utilizações farmacológicas – incluindo-se aí um revolucionário tônico para calvície e um regularizador de disfunção erétil capaz de deixar o azulzinho Viagra vermelho de vergonha.

Tecidas estas considerações, destaco também em defesa de José Denárdio seus inequívocos sinais exteriores de pobreza, ou de empobrecimento lícito, como a posse de um tupperware rachado e colado com durex e a constatação de um taco solto em sua sala de estar, com um volante da loteria esportiva de 1973 servindo de rejunte provisório – ou permanente, pela longa data da gambiarra. A única, aliás, que o incorruptível caráter do acusado poderia conceber. Coragem, José Denárdio, mantenha a cabeça erguida. A história lhe fará justiça.


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01 Novembro, 2008

ENQUANTO ISSO


Secos & Molhados, utensílios domésticos, gêneros de primeira necessidade: bacalhau salgado com alhos em réstia, cereja ao licor na tina a granel, queijo curado de casca suja e muito grossa, fumo de corda e querosene. George Bush, no fim do mandato e há 3 dias sem dormir, quer reunir os líderes mundiais para criar nova ordem econômica. As dezoito luas de Saturno seguem em silente e imperturbável órbita, nem aí para a irmã menorzinha do sistema solar. O dono da venda faz com o dedo garranchos no nada, farto da lida, da vida e da Cida, a patroa. O cão malhado e sem raça, na porta do armazém, gira em círculos tentando pegar o rabo. No autódromo, o escudo da Ferrari está pelando ao sol do meio dia e meia. Na mansão da Galícia o casal fogoso parte para a segunda, após vinte e cinco minutos de descanso do embate inicial. Nada azucrina a paz do pombal na Quinta das Sequóias, em Sintra. O cão dá trégua ao próprio rabo com o ploft da viúva Ângela ao pisar na poça. O relógio de Bush pára, ser insone no salão oval. Pensa que o antecessor, ali, se divertia muito mais. Sem atentados, sem Osama e sem Obama. “Vende-se esta venda”, vou pregar cartaz na porta, não há viva alma a precisar de nada. Saturno e suas luas prosseguem, sem noção da sua parte no equilíbrio do universo. Alguém da criadagem abre o trinco do pombal. Alguém da escuderia dá partida ao F1 para a volta de qualificação. Alguém será gestado na cópula da Galícia. Alguém alisará o pêlo castigado do cãozinho. Alguém tirará Bush de seu sinistro devaneio, com más novas. Alguém pedirá uma pinga no balcão, fiando como de hábito. Ninguém poderá fazer nada para que as luas de Saturno ensaiem um bailado novo.


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Foto: Nasa



25 Outubro, 2008

SALVEM OS ÍMÃS DE GELADEIRA!


A atual crise econômica em que todos nós terráqueos estamos metidos não vem deixando pedra sobre pedra. Até mesmo setores historicamente imunes às oscilações monetárias e blindados contra o vacilante humor de Wall Street andam combalidos, à cata de uma solução messiânica que os façam sair do buraco. É o caso do pujante comércio de rapé, commodity cujo preço mínimo internacional caiu a níveis aviltantes, forçando os produtores da região de Barra do Garça, considerado o Vale do Rapé, a trocarem seu cultivo pelo do alpiste.


A indústria de conta-gotas é outra duramente atingida pelo tsunami econômico. Fábricas de renome, algumas com mais de 122 anos e meio no mercado, vêm adaptando seu maquinário e utilizando sua capacidade ociosa para a produção de carimbos de bichinhos e capas de banco de bicicleta com estampas de times de futebol.


E que dizer do nosso parque industrial de benjamins, também conhecidos como “Tês”, dependendo da região em que são comercializados? O desalento beira o caos. No último dia 23, a cotação do produto nas bolsas de São Paulo e do Rio variava entre R$ 1,94 e R$ 2,26, fechando a R$ 2,15 e perdendo definitivamente a paridade com o dólar, mantida intacta há décadas. A mercadoria era tão firme na bolsa que os operadores do pregão apelidavam sua cotação de “dólar-Tê”, servindo inclusive como indexador de contratos.


As lojas de armarinhos também aos poucos vão se adaptando ao novo quadro, acrescentando ao seu já extenso mix de quinquilharias os próprios armarinhos, que sempre deram nome às lojas desse gênero mas que estranhamente nunca foram comercializados por elas. Juarez Afrânio Ling, dirigente lojista, explica: “Estamos focando no nosso negócio principal, a nossa vocação verdadeira: o armarinho. Com puxadores de metal, de madeira, com gavetas e divisões internas, mas sempre armarinho. É um nicho de mercado altamente promissor, a que estávamos desatentos em face da diversificação crescente em nosso segmento. Eu diria que é uma volta às origens”.


Na esteira da desgraça, os fast-foods reclamam de barriga vazia. Uma das maiores redes do país teve que cortar na carne e eliminou o hambúrguer do cheese-salada, mantendo apenas o cheese e a salada. Uma saída criativa e honesta para a crise, já que o produto, ainda que diminuído, oferece ao consumidor exatamente o que promete.


Ruim para produtos, pior para serviços. Desde o estopim da turbulência, os pontos de charrete estão às moscas, e nada parece reverter essa tendência a médio prazo. A majoração do feno e da alfafa no mercado internacional ainda não chegou ao consumidor, que por sua vez vem migrando para a carroça e o metrô como alternativas de transporte.


O serviço de carpideiras vem sendo particularmente muito penalizado. Quase todas choram dolorosas perdas. Laurentina Benite Lemos, presidente do sindicato da categoria, desabafa: “É um paradoxo. Nunca choramos tanto, contudo não estamos ganhando mais com isso. Alguém pode me explicar essa situação?”


Num catastrófico efeito dominó, a quebradeira ameaça os mordedores pediátricos, a macaúba em coco e em gosma, as lixas de unha, os dadinhos de amendoim, as tampas de pia, os alfinetes de cabecinha, as cantoneiras de fotografia, as lousas verdes e negras e mais uma infinidade de gêneros vitais ao dia-a-dia do brasileiro. Oremos para que ao menos os ímãs de geladeira escapem ilesos desse furacão. Oremos!



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18 Outubro, 2008

LA GRAN MANSIÓN DE LOS ASOMBROS


- Baita sustos, brasileños, entrem cá. Garantizo baita sustos e también leio sus manos... dos servicios en una sola casa... la gran mansión de los asombros, entrem cá! Grupos ganham empanadas al final de la sesión, aproveitem.

Valha-me Dios, como está fraco o movimiento hoy.
Es triste ninguém querer ser assustado ou tener las manos lidas, antes las personas deixavam-se seducir fácil por atraciones así. E mira que cobro um pesito de nada, valha-me Dios. Mas pensando bien, Gersina, se estivesse aqui a passeo ia gastar su plata nesse programa estúpido? Dicem que en Brasil são más comuns os trens fantasmas e La Monga, um juego de espelhos que cambia mulher em gorila. Se um desses brasileños me levasse embora, ia vivir virando Monga de quermesse em quermesse, en la provincia de San Pablo, Minas Generales, quien sabe Marañon. Dá para entrar trinta de una vez para testemunhar la espectacular transformación. A cinqüenta centavos por persona, quanto dinero iria juntar no fim do mês?

Ih, lá vem a vagabunda dançarina del tango a encojar otro hombre acompanhado e tirar foto de recuerdo de Caminito. Está é deseosa de levar unos tabefes da esposa del bofe, com essas piernas e más alguna cosa de fora. A encoxada é certa, incerto es la plata pela dançadinha con el turista e pelo retrato. Entre não ganar nada lá e aqui, prefiro ficar aqui mismo. Mira, que tonto esse hombre agora. Parece borracho. Dejó cair metade do alfajor com o encontrón que o Rey de los Cueros deu nele, já empurrando o coitadito adentro da loja. Cuero, ainda vá lá. Mas salir carregado de traquitanas de Gardel y postales del Obelisco, ora por favor. Tonterias...

Que venga um hombre rico, em terno verde de dólares, querer um susto caprichado o um destino encantado en las cartas dessa vieja decadente. Venga, brasileño abonado, com sus niños, sentir o frio en la espinha com los objetos que se movem misteriosamente, os ojos de los retratos que acompanham los visitantes. Es la última mansión de los asombros que se preza, em toda a Capital Federal. Temos aqui la exclusiva Evita que se levanta del ataúd e faz um playback bonito de “Don’t cry for me, Argentina”. Está frío e o aluguel es caro, el gobierno manipula a inflación, há desvalidos de Mendoza dormindo debajo das colunas do Banco de la Nación, vivendo de vino barato e pão amanhecido. Donde está la gloriosa Argentina? Solamente en los antiquários de Santelmo? No, no, soy contra esse estado de cosas.

Precisam de balconista em una libreria na Corrientes, vi num clasificado del Clarin de ontem. Em meio a libros, mejor que manos lidas e sustos que no atemorizam nem perros desmamados. Bastam los sustos reales de la vida, quem há de querer más, sustos forjados no tienen efecto.

Si, puedo vê-la agora, Evita, não chorando por la pátria, mas por mi miséria, compadecida. Evita de verdad, musa del pueblo. No la falsa Evita, essa do ataúd de la mansión de los asombros, pero la redentora, la verdadera. E te levaria à Recoleta de hoy, donde dormes há décadas. E después te entregaria a Perón, defunto ressurgido, en la catedral metropolitana, para nuevas e eternas núpcias. Perdona mi portuñol casi incompreensível, é de tanto hablar con brasileños, são casi tantos quantos los argentinos por Montserrat y Palermo, batendo piernas por Cale Florida, os más espertos e os que são ludibriados, comprando casacos y carnes do Rio Grande del Sur pensando serem de cá. Valha-me Dios! Entonces la gran mansión de los asombros resistirá, como resistem las madres de mayo. Como resiste tu e tus encantos, na gloriosa Argentina, que chora até hoy por ti.

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11 Outubro, 2008

ARQUIVO MORTO


Provavelmente as imagens eram de um feriado prolongado, mas não estava bem certo. A impressão que dava é que tinham passado uma borracha ou um ferro de roupa em cima das cenas. Corpos e vozes distorcidos ao irreconhecível. Minha mãe com voz do meu pai e vice-versa. Minha filha, com seus quatro anos e morrendo de medo de bicho-papão, falava como um deles enquanto brincava com um Lango-Lango verde e outro abóbora. A reunião de família estava mais para um parque de diversões com aqueles espelhos que deformam gente. Tinha feito a gravação e guardado, nunca mais reproduzi. Vai ver a falta de uso fez tudo aquilo.

Do not touch this tape inside. Desobedeci a recomendação e abri o compartimento, pra ver se salvava o estrago. Rebobinei, depois dei avanço rápido, coloquei na parte do meio da gravação, talvez mais pra frente houvesse algum registro preservado. Mensagem de ajuste de tracking. As cores sumidas, faixas de chuvisco no meio da tela. Mal dava pra ler no rodapé a data: Maio, 14, 1992.

Arrumei emprestado um outro videocassete, quem sabe as cabeças do meu estivessem sujas. Nada que atenuasse o irreparável. Resolvi transferir a ruína remanescente, no estado em que se encontrava, para DVD. Algo assistível tinha de restar. O gravador de DVD não aceitava, com a mensagem “Vídeo instável. Gravação pausada”.

Se passado, presente e futuro são dimensões que existem simultaneamente, aquela fita estava ao mesmo tempo na loja esperando ser comprada, sendo desvirginada pela filmadora e já em forma de sucata num lixão de 2030. Eu também, enquanto pensava nisso, estava nascendo e morto há séculos. Deixei quieto. Não há leite derramado.


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04 Outubro, 2008

A QUEM INTERESSAR POSSA


O plano de saúde Uniduni faz saber a todos os seus associados que suspendeu a cobertura a transtornos digestivos de usuários que praticam regularmente a caça ao pato de pena rajadinha, e que porventura venham a digeri-la como refeição – seja o seu preparo frito, cozido ou assado, ao molho pardo e a passarinho. É por demais sabido que a carne do referido animal, arroxeada e de odor próximo ao da lontra nórdica, costuma atacar enzimas pancreáticas vitais ao processo de síntese proteica, acarretando cólicas incontroláveis. Além disso, a assessoria de imprensa da empresa argumenta que os adeptos dessa prática incorrem em ato ambientalmente condenável, portanto passível de julgamento e punição pelas esferas competentes, salvo nos meses em que a caça ao pato de pena rajadinha é permitida e regulamentada pelas normas dos nossos bosques e parques florestais. Na ocasião, o plano Uniduni comunicou oficialmente o lançamento do produto Salamê Mingüê, modalidade de assistência médica criada especialmente para a faixa etária de 0 a 4,8 anos.

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A fábrica de encordoamentos de nylon para bandolim “Irmão & Irmão” esclarece que o recall a que procedeu recentemente teve sua validade estendida até junho do próximo ano, devido ao fato de apenas 37,6% dos compradores dos lotes danificados terem procurado o Serviço de Atendimento ao Cliente para efetuar a troca do produto. O recall se deu após os laboratórios da empresa detectarem, em testes de resistência e fadiga de matéria-prima, um defeito de fabricação na corda Mi, que poderia provocar calejamento precoce nos dedos indicadores esquerdos dos bandolinistas. Em sendo o bandolinista também médico urologista, o defeito apontado causaria ainda perda de sensibilidade do dedo na execução de exames de toque, gerando falsos resultados positivos e negativos nas investigações de anomalias malignas na próstata de seus respectivos pacientes.

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“Não há motivo para pânico”. Assim reagiu o diretor para assuntos comunitários da Prefeitura ao ser indagado sobre as manifestações populares decorrentes da súbita mudança do fornecedor de saquinhos de balas da bombonière do nosso glorioso Teatro Municipal. O alvoroço se deu após um grupo de freqüentadores daquela casa de cultura se dirigir até a redação do nosso jornal para um protesto, onde em uníssono alegavam que a troca de fornecedor – ocorrida sem concorrência pública – ocasionou um nível de decibéis acima do costumeiro, quando da manipulação dos saquinhos de guloseimas pelos espectadores, o que prejudicaria seriamente o entendimento dos diálogos travados pelos atores no palco. Um dos cidadãos presentes acrescentou que o problema não se restringia aos diálogos, mas também – e sobretudo – aos monólogos. Após a denúncia à imprensa, o grupo, munido de faixas, partiu para um amassamento coletivo de saquinhos à frente da residência do secretário municipal de cultura, que com o barulho ensurdecedor não conseguiu mais conciliar sono. “A um bom administrador não pode faltar a coragem de admitir o erro e voltar atrás”, concluiu a insone autoridade, prometendo à reportagem d’A Notícia firmar novo contrato de fornecimento com o antigo fornecedor, denominado Papelucho Artigos de Papel e Papelão ME.

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27 Setembro, 2008

NÃO SE PERCA DE MIM, NÃO DESAPAREÇA


Naqueles idos, diziam que a cerveja subia mais rápido se tomada no gargalo. Coisa estranha, de que jeito se a cerveja era a mesma, no copo ou na garrafa? Gargalo não era vara de condão. Via o baile lá de cima, no último lance da arquibancada do ginásio. Preferia assistir, só ia pro meio da bagunça quando Momo fazia o cerco, brandia o cetro e exigia rendição.

Te quero às pressas, mas com luz forte e quente iluminando o espetáculo. Ver é bom, a dança a dois e às claras é bem melhor que o baile e suas máscaras, suas mesas reservadas, seus pais zelosos com as filhas em flor. Nada de joguinhos de sedução mal resolvidos, a vida é curta pra ficar dando a entender. Insinuação tem hora, e a hora é de saciedade. Reparar e curtir os defeitinhos do corpo revelados de manso, isso sim pode ser, mulher gosta dessas coisas. Mas só se for depois do crescei e multiplicai-vos. Saiamos do clube assim, jogando a roupa fora, afoitos para a luta corporal. Não temos retoque, somos tais e quais e isso é benção, a única maquiagem é um discreto contorno de lápis deixando seus olhos mais lindos pro mundo. Como se precisasse.

E tudo seria se você houvesse, mas você não havia. Não havia você nem baile a dois, só aquela horda de suados se acotovelando lá embaixo. Tão longe do ilusório onde você mandava e desmandava, tomada de empréstimo dos seres imaginários. Eu não só te dava forma mas compunha teu futuro. Acontecia de te fazer mãe de um monte de crianças minhas, como se a vida conjugal fosse o destino inescapável, sepultando a carne na rotina dos carnês. Casal de meia idade na matinê da província, levando os meninos de pirata e colombina, você trocando receita com a comadre Rose. Que tacanho.

O bloco dos monges sacanas, cordão berrando as marchinhas, em punho os lenços de lança. Você entra no banheiro das damas com uma amiga, quem sabe a futura comadre Rose. Então me enxerguei compadre do marido dela, que nem tenho idéia de quem poderá ser. Esgano com a serpentina essa possibilidade. Mais um trago de cerveja no gargalo.
Pode ser que você volte do banheiro, a maquiagem retocada e resolvida a me sufocar com um beijo e me oxigenar de vida, dando corda a esse improvável filme B de nós dois na minha cabeça. Como também pode ser que no caminho aqui pra arquibancada já tenha flertado com outro, e nesse outro projetado seus melhores e próximos anos, me deixando aqui até que surja uma odalisca que ninguém quis, implorando o calor que era pra você.
Há de sentar-se ao meu lado, o tule da fantasia roçando meu braço esquerdo. E perguntará por que eu tomo cerveja no gargalo, se existe copo pra isso.

Um frevo emendou na marchinha e me trouxe de volta, um pouco mais convicto de que tem mesmo alguém na supervisão lá em cima, ainda que manipulando a esmo as cordas dos marionetes, encontrando e desencontrando gente do jeito que der na telha.
Não digo que seja um deus, mas alguém acima da raça dos suados que se acotovelam. E que a uma hora dessas pode muito bem estar tomando cerveja no gargalo e dando nós nos fios que nos governam.



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20 Setembro, 2008

AA - ANÔNIMOS ANÔNIMOS


- Central de atendimento do AA – Anônimos Anônimos, boa tarde. Com quem eu falo?
- Pergunta besta. É lógico que não vou dizer.
- Ah, é um dos nossos. Qual o problema, alguma recaída?
- Claro. Por que acha que estou ligando? Pra ficar falando de mim, que eu sou o máximo, que eu faço e aconteço? Se telefonasse pra isso seria um indício de cura, e conseqüentemente não precisaria ligar para o plantão. Na verdade, não é bem uma recaída. É uma reclamação.
- Ok, senhor. Pode falar.
- Vou falar, mas o mínimo necessário. O suficiente pra que você me entenda e aconselhe. Na última reunião do AA vocês vieram com uma conversa que eu tinha de passar por uma prova de fogo: tirar minha carteira de identidade. Bom, num esforço sobre-humano, saí pra providenciar. Aí o sujeito lá do Poupatempo apareceu com um formulário que era um verdadeiro inquérito pra cima de mim. Queria saber meu nome, endereço, local de nascimento, disse que precisava tirar foto... imagina o absurdo, tirar fotografia! Depois de 54 anos incógnito.
- Mas o senhor tem 54 anos e até hoje não tem identidade?
- Meu anonimatismo é severo, grau 5 – quase 6, minha filha.
- Sim... prossiga, estou anotando.
- Anotando? Anotando o quê? Exijo que rasgue imediatamente seus apontamentos. Se alguém lê pode identificar o problema relatado com a minha pessoa, e aí eu me torno conhecido. Respeite meu direito ao anonimato. Não se esqueça que essa regra consta no código de ética dos Anônimos Anônimos.
- De fato, senhor. Desculpe a indiscrição.
- É bom que me respeite mesmo. Meu avô foi um Sicrano inveterado, meu pai foi um Beltrano de marca maior e eu sou um Fulano com F maiúsculo. Três gerações de gente que graças a Deus passou despercebida por este mundo de pessoas que só querem aparecer. Uma célebre dinastia de desconhecidos, da qual nunca ninguém há de ouvir falar.
- Tudo bem, Sr. Fulano. Pode continuar contando o seu problema.
- Alto lá. Um anônimo que se preza não conta coisa nenhuma a quem quer que seja, ainda que a senhorita seja também uma anônima para mim. Sabe como é, as paredes têm ouvidos, os telefones têm grampos e há poucos lugares no planeta não esquadrinhados por uma câmera de segurança. Talvez estejamos ambos, no momento, sendo vigiados por um terceiro. Quem sabe um quarto, quiçá um quinto... só de falar já me apavoro.
- Mas senhor, é preciso convir que anonimato tem limite.
- Limite? Só se for pra você. O anonimato é a liberdade extrema, é justamente a ausência de limite. Ninguém me cobra nada – nem deveres, nem favores, nem prazos, nem satisfação de coisa nenhuma.
- Mas o senhor não tem amigos, não trabalha?
- Trabalho numa Sociedade Anônima. Não tenho a menor idéia de quais são os meus sócios e tudo vai muito bem assim, do jeito que está. Até pouco tempo atrás só aparecia lá na empresa pra assinar o pró-labore. Ia disfarçado de mulher, mas desconfiei que estavam me reconhecendo. Agora arrumei um testa-de-ferro que cuida de tudo, se passando por mim para que eu continue passando em brancas nuvens. Igualzinho o cara que assina este texto. Pra quem não sabe, ele não existe. É pseudônimo.


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13 Setembro, 2008

DA SÉRIE "REENCONTROS"


Adolescente come tudo o que vê pela frente. E entenda-se no caso o verbo “comer” em acepções variadas, como se pode supor em sendo o adolescente macho e naquele cafundó onde nada faltava, menos o que fazer. Não tendo o que degustar em carne e osso de imediato, ele ligou o aparelho com o bico do bamba branco. Aliás, bamba só tinha branco, pelo menos nas melhores casas do ramo por ali, num ano perdido que é preferível nem mencionar por estar perdido mesmo.

“Vamos passar a noite juntos”, convida Mr. Michael Philip Jagger a quem interessar possa na fita cassete Basf 60 minutos. Aquilo era o rock no cio. Entre uma faixa e outra, o ruído gravado da agulha sulcando o long-play high fidelity parecia um campo de batalha, Vietnam fonográfico a detonar a paz doméstica que ainda restasse. Pra contrabalançar o ”Let’s spend the night together” ia muitíssimo bem o “As tears go by” que vinha na seqüência - presença obrigatória nos bate-coxas à média luz, que os cinco rebeldes gravaram em resposta a “Yesterday” no interminável toma-lá-dá-cá Beatles/Stones. Havia ali um quê angelical que traía a simpatia pelo demônio, coisa que os autores não faziam questão nenhuma de esconder. O arranjo de cordas era quase um anti-Stones, a negação da língua de fora, a versão “música de casamento” dos ícones da irreverência mais contraventora que o mundo já conheceu.

Numa pilha de discos ao lado do Sharp com sistema belt-drive, o “Cores, Nomes” do Caetano fala da franja da encosta cor de laranja, do capim rosa-chá, do mel de olhos luz e de átomos que dançam. Linda, mais que demais, porém a taxa hormonal no pico pedia pedras rolando, de preferência com a presa da vez na cama de solteiro e já nuinha pra não se perder tempo desembrulhando. Ela diz que ouviu falar que cinza de cigarro na cerveja dá barato. Fiapo de casca de banana torrado no forno também. O melhor pra se fazer na vida acontecia no quarto quando não havia ninguém em casa, com incenso aceso pra disfarçar outros cheiros, ou no maverick emprestado, sempre com gasolina na reserva e o tape com o ajuste de graves defeituoso. Não se cogitava o boato de que o Keith havia trocado todo o sangue do corpo, na tentativa de se purificar das drogas. Charlie Watts, o mais velho, devia andar por volta dos quarenta, se tanto, e sem sinal de câncer na garganta. As aulas eram matadas impiedosamente porque não havia mesmo recuperação que evitasse a repetência, nem nada que fizesse o Zé Vicente tomar jeito.

Na sala ampla de pé direito alto, José Vicente Lagoa Altenfelder, CEO de poderosa multinacional coreana do ramo químico, lê que o desenho original da lendária língua vermelha e branca foi vendido por 51 mil libras para o Victoria and Albert Museum, de Londres. Dobra o jornal, se espreguiça na long chaise e aciona o home theater para o “Shine a light”, do Scorsese. Aqueles senhores sexagenários mandando ver “As tears go by”, mais de 40 anos depois do raro surto de inspiração, canalizaram nele as lágrimas do título. Talvez mais que todas as vertidas desde os tempos da rainha Lady Jane.


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06 Setembro, 2008

MÍNIMO MENINO COMUM


No desajeito próprio dos pequenos, sem que tivesse a exata noção de si – coisa que nem os adultos do lugar pareciam possuir, o menino era um espanto em andamento, e em sua mente muito intacta o que fosse dito ou visto se incrustava.

Baixem-se a guarda, as armas, o tom de voz. Minimize-se o menino, seja dos mínimos o menor, um prodígio fabricante de sorrisos nos crescidos. Deixe-se envolver no bem-estar de vê-lo, já que não se pode sê-lo. Note que entre ele e o cachorrinho de pelúcia deu-se a química, um afeto de centelha.

Não que careça ver nexo nesse afeto que reporto, apenas digo que as notas da quarta balada, em suspensão há décadas nas auroras de tais sítios, pousaram lisas agora nas felpas da sua manta. Caiba o menino nas meninas de outros olhos, para que vocês também, libertos de suas túnicas de arame, possam vê-lo nos pompons de sua inteireza.

Mínimo, como convém, seja o sultão dos tapetes fofos e o campeão olímpico das piscinas de bolinhas. Fucem à vontade em seus dispositivos de armazenamento de zil gigas, dêem no Google todas as buscas possíveis, mas de antemão não contem com a ventura de encontrá-lo, pois é inconcluso e rarefeito como os mínimos meninos.



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30 Agosto, 2008

VOU-ME EMBORA PRA MIM MESMO


Ou é agora ou nunca mais, pensei.
Rumei decidido à cata das tardes de esteio firme, aquelas que eram substancialmente tardes de rachar o liso das calçadas, em horas e horas de ócio pra muito além do boulevard. Fui chegando e pus-me à vista das cercas mesmas das casas todas. Cercas feitas de igualdade, talhadas no esquadro do artesão, cercando as sinas semelhantes de homens parecidos no vagar e na fisionomia, no jeito de olhar a serra e de ir tocando a vida em meio a assovios e nomes-do-pai.

Eu voltando, voltava no ventre do retorno eterno, o volver infante, espesso de leite e cheiroso de talco. Entrei de fininho naqueles dias findos, sabendo do risco do reboco desprendendo, das heras há muito não aparadas e das calhas entupidas. O uísque com gelo era um guizo nas mãos trêmulas com as dez vistas que assomaram com cantoneiras nas bordas. Via em cores e confrontava ao branco e preto que ficou e que me impulsionava a cavar naqueles sítios a parte faltante de mim. E dizia, pra encorajar-me, que vinha pra cumprir o que tinha de ser e ficou no intento, por teimosia de seguir caminho outro e não o adjacente, o já disposto em espólio antepassado, o que era a fortuna ou o infortúnio de todos os outros filhos das casas de cercas baixas. Quis-me assim, fora dos médios.

A porta da frente rangeu alto quando ela entrou. Tão pouco mudada, tão secularmente ela, musa do feudo revisitado.

- Eu te disse que ninguém sai impune daqui.
- Isso eu sabia e paguei o preço, essa certeza era o peso que vergava a mala na estação, o andar indeciso renegando a ida, a vontade um milhão de vezes frouxa. Por que veio até aqui, me diga? Mórbida. Parece nome de gente, Mórbida lhe cai tão bem. Trago nas solas o barro do mundo, caríssima, de terra estranha que teimei pisar e amaldiçoei chorando muito, fique ciente.
- Por aqui ficou o que sempre esteve, mais ou menos do jeito que Deus dispôs nos seis dias de trabalho. Não te digo que seja o mesmo o sineiro na matriz, nem o bedel, muito menos as meninas que a medo te ofereceram a carne antes de mim. Mas você também não é o você que esse lugar pariu.
- Hoje sei. Mas eu nunca saberia, se ficasse.
- Ali estão as ferramentas descansadas na bancada do seu velho. Com o olhar de agora talvez veja serventia nelas. Não há mais tua mãe varrendo, nem quem quer que seja cuidando do que foi. Tudo meio triste, aquarela muito aguada. Sabe que não imaginei revê-lo assim, com esse copo na mão, cedendo como as vigas do terraço?
- Desaponta ver essas paredes pelo meio, eu que vi cada fiada de tijolo se erguendo, os beirais se levantando... devia era não voltar e não ter que ver essa escada, que já não leva a parte alguma.
- Me lembro dela com corrimão de bronze e feltro vermelho nos degraus largos. Lá em cima, o tempo bom da gente olhando da janela do seu quarto.
- A gente só não podia com o vento batendo forte.
- O vento leva e traz as coisas. O vento ensina.

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23 Agosto, 2008

BREVÍSSIMAS OLÍMPICAS


Notas do nosso correspondente enviado a Pequim


Meu leal e benevolente leitor, posso até vê-lo daqui, do outro lado do mundo, à frente da sua TV adquirida em suaves parcelas nas Casas Bahia, acompanhando os certames de Pequim e detonando sua porção de pipoca de microondas com a voracidade de um leão a destroçar o alce. Adivinho também que o amigo deva estar no momento com ambas as mãos ocupadas, uma pilotando o controle remoto e outra segurando o copão de coca ou cerveja, o que me faz supor que se encontre com a cara enfiada nos piruás que ficaram lá no fundinho da tigela, tal qual ruminante no cocho.


Pois não seja eu a perturbar o seu televisivo espírito olímpico com minhas dispensáveis notas, tão sem encanto e interesse. Contudo, aí vão algumas delas, que sou forçado a parir por estar sendo (mal) pago para isso.


No cálculo em altura, deu a lógica: dona Oberici Guedes da Costa, angolana naturalizada portuguesa, que o Guiness Book of Records aponta como o ser humano do sexo feminino com maior quantidade de sardas por centímetro de pele, ficou com a medalha de ouro em conta de dividir com três casas decimais depois da vírgula – a sua especialidade, juntamente com a recitação de cor e salteada dos números primos até 859.663.002.984.351.935. Tal feito deixou boquiaberta toda a platéia do Ninho de Pássaro, naquela altura do campeonato já totalmente salpicado por cacas de pombas de variadas nacionalidades.


Grande expectativa marcava a final dos bocejos de praia, masculino e feminino. O público que lotava as arquibancadas ia ao delírio frente ao hipopotâmico esgarçar de mandíbulas dos moços e moças de Gana, que em espetaculares jogadas ensaiadas deixava os adversários desconcertados. Causou consternação geral o momento em que os medalhistas de prata deixaram a quadra de bocejos aos soluços, enxugando as lágrimas com a bandeira de seu país (que a bem da verdade não me lembro exatamente qual era).


Seria este repórter um relapso se deixasse de registrar a zebra por excelência destes jogos, no revezamento 4 x 400 sem barreiras. Como é do conhecimento de todos, essa prova consiste na participação de 400 atletas a percorrerem uma distância de 4 metros cada um, passando o bastão para o próximo, que corre seus 4 metros e assim sucessivamente. Os fundistas do Cazaquistão, favoritos pelo exímio preparo físico, foram vencidos pela equipe da Guiné Bissau, que no entanto teve que devolver as medalhas duas horas depois por dopping. Resultado: a China sagrou-se vencedora, sendo esta a única láurea conquistada pelo país anfitrião.


Last but not least, o nada sincronizado foi a modalidade de maior audiência do evento, calculada na fase eliminatória em 6,5 bilhões de pessoas ao redor do globo. Tivemos uma final arrebatadora, onde, em impecável sincronismo, 87 atletas nada faziam durante as cinco horas e trinta e cinco minutos de duração da prova. Um acontecimento que ficará gravado para sempre nos anais da história e que honrou sobejamente o ideal olímpico do Barão de Coubertin. Agora, é aguardar Londres 2012, onde juntos estaremos mais uma vez – se a sua paciência suportar e se de novo cometerem a imprudência de me enviar para a cobertura.



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16 Agosto, 2008

AULA DE RELAXAMENTO


VAMOS LÁ, PESSOAL. INSPIRANDO... EXPIRANDO... SENTINDO CADA MÚSCULO DO CORPO TOTALMENTE RELAXADO, MOLE COMO MACARRÃO COZIDO...


É, macarrão pode ser uma boa pro almoço. Não dá tanto trabalho, abro uma lata de molho e pronto. Latitude e longitude, tenho que lembrar a definição certinha pra ajudar o Júnior na lição. O computador está no conserto, preciso pesquisar em outro lugar.


VISUALIZEM AGORA UMA LUZ AZUL, SUAVE E REPOUSANTE, ENVOLVENDO TODO O SEU SER...


Quando estava no ginásio era tudo na munheca, copiando a lápis da Barsa. E tinha que ser na biblioteca. Bem incômodo, mas pelo menos os livros não pegavam vírus. Quando muito, umas traças.


CONCENTRANDO O PENSAMENTO EM UM MANTRA OU UM OBJETO. UMA VELA COM A CHAMA ACESA, POR EXEMPLO. QUIETUDE TOTAL...


Esse eco de academia. Que quietude é possível? O mundo quieto, cale-se, Chico Buarque. Dizia tudo falando em código. Ditadura. Julinho de Adelaide, o pseudônimo que ele adotou pra burlar a censura. Nossa, eu lembro disso. Tinha uns 14 na época. Cale-se, vai. Vê se presta atenção na aula, Denise.


A IDÉIA É APAZIGUAR O CÉREBRO, AFASTAR IDÉIAS FIXAS E OBSESSIVAS...


De novo aqueles montinhos pretos e malcheirosos na minha grama. O cachorro é dela, caramba, ela é que tem que dar um jeito nessa situação.


SINTA-SE LEVE, IMAGINE-SE PAIRANDO ACIMA DO CORPO...


Leve, é? Sei, sei. É dieta, caminhada 4 vezes por semana, e vai ver... Fora as pelancas. Agorinha, quando baixei a cabeça, senti a pele do rosto se desprendendo dos ossos, cedendo à lei da gravidade. Ai, meu Deus, comigo não. Não está acontecendo, livrai-me.


NESSE ESTÁGIO EM QUE ESTAMOS, AS ONDAS CEREBRAIS ENTRAM EM OUTRA FREQÜÊNCIA...


Terça que vem é aniversário do Jonas. Afilhado não é filho, vai uma lembrancinha de 1,99 mesmo. Melhor já comprar no caminho de volta.


LEMBREM-SE QUE 12 MINUTOS DESSE EXERCÍCIO EQUIVALEM A 4 HORAS DE SONO PROFUNDO...


Espera aí, tinha mais uma coisa pra fazer. Café e mussarela na padaria, a pilha do portão eletrônico, água oxigenada pra clarear esses pêlos pretos do antebraço... Malditos pêlos, devia ter nascido homem. Tudo muito mais prático. Que mais que tinha que fazer mesmo?


O STRESS, AS PREOCUPAÇÕES, A ANSIEDADE, NADA DISSO EXISTE AQUI. JUNTOS ESTAMOS TRANSCENDENDO O COTIDIANO ASFIXIANTE E MESQUINHO. ENTRANDO NUMA NOVA DIMENSÃO PLENA DE PAZ, TRANQÜILIDADE E HARMONIA...


Lembrei: o Lexotan! Ah, não... esqueci a receita lá em casa.






09 Agosto, 2008

MUNDO CÃO


I

Foi uma alegria quando o Seu Totó apareceu com o humaninho em casa. Uma graça - de terninho, gravata e sapato preto de bico fino.

- Qual a raça dele, pai?

- Não sei direito, Lassie, mas parece que é lavrador. Estava abandonado num caminhão de bóia-fria. Que judiação, deu uma pena. Não resisti e resolvi adotar. Não era você que ficava me infernizando, pedindo uma humaninho? Pois então.



II


- Vamos ter que passar no human-shop pra comprar arroz e feijão pra ele, disse Dona Lulu.

- Não precisa ser no human-shop, querida. Hoje em dia tem seção de produtos pra ser humano em tudo que é supermercado. Podemos dar uma olhada no Cãorrefour, no Rextra ou no Cão de Açúcar.

- Nada disso, papito, melhor uma loja especializada. Aí a gente já aproveita e compra escova de dente, desodorante, talco de chulé, uns maços de cigarro e uma garrafa de pinga.

- É, e também não pode demorar muito pra vacinar, disse o Tobi. Paralisia infantil, sarampo, catapora, tétano...

- Pera aí, cachorrada, assim não é possível. Se for comprar tudo o que inventam pra criação de gente o meu salário na Purina não vai dar. Tem até psicólogo e academia de ginástica pra esses bípedes sem rabo. Não há dinheiro que chegue.



III


- Mami, olha só, o humaninho não pára de falar. O que será que ele quer latir com isso?

- Eu sei lá, o que eu sei mesmo é que não quero saber de bagunça aqui dentro de casa.

- E alguém pode me dizer se os humaninhos mordem?

- Ouvi falar que não, mas ficam mordidos quando estão sem dinheiro. Grana pra eles é a mesma coisa que osso pra nós, Lassie.

- Ah, isso é verdade, ô se é. Outro dia lá na escola o Pedro Pintcher apareceu com um saquinho de dinheiro. Aí a gente ficava jogando notas e moedas pro humano de estimação do Diretor. Ele saía correndo que nem louco atrás, precisava ver! E nem era adestrado, o danadinho.



IV


- Humanos também adoram televisão.

- Igual a que a gente tem aqui, com os franguinhos girando?

- Claro que não, eles não raciocinam. Gostam de novela, grupos de pagode, programas idiotas de auditório e outras atrações onde as fêmeas humanas abanam os rabos e os machos ficam arfando, com as línguas de fora. Isso é o máximo que o QI deles alcança.

- Tobi, meu filhote, já colocou o jornal lá fora pra ele fazer xixi?

- Já coloquei agorinha, mas ele pegou o jornal e começou a ler. Vê se pode.

- Ué, tá negando a raça? Menos mal, enfim um humano se instruindo. Só espero que a leitura não se reduza ao horóscopo.

- E que nome vamos dar pra ele, heim? João, José, Antonio, Daniel, Orozimbo...

- Que tal Praxedes?

- Lindo.

- É, Praxedes tá legal.



V


Exausto com o alvoroço do primeiro dia, Praxedes se espreguiçou na casinha e tentou dormir, mas o sono não vinha. Ligou a TV que instalaram pra ele, no cercadinho. Como sempre, só havia pastor em todos os canais. Pastor alemão, pastor belga, pastor capa preta, pastor com pedigree, sem pedigree, filhotes, adultos. Zapeando pela programação, pôs-se a imaginar um mundo menos cão e mais humano, onde os animais domésticos fossem os cães e não as pessoas. E viu-se dono de uma próspera rede de pet-shops, morando numa casa de três andares e cheia de cachorros no quintal.



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02 Agosto, 2008

737



Sabia que não escaparia ninguém, pelo ruído incomum e pela fissura logo abaixo de uma das turbinas. Nem por isso sua mão tremeu mais ao servir vinho para o grisalho panamenho que dela não tirava os olhos desde o check-in em Los Angeles. A echarpe com centenas de loguinhos da companhia aérea disfarçava o suor frio. Seu olhar ia da taça de vinho à turbina condenada, da consciência do dever à certeza da tragédia, não havia clima nem vontade de corresponder à insinuação daquele homem.

Se tivesse idéia das cinzas a que nos reduziremos, não perderia os últimos momentos nesse joguinho infrutífero. Pense em sua mulher, senhor. Nos filhos, no cachorro, nos negócios, não em mim. Faça um ato de contrição, um nome do Pai, por favor, desmonte esse ar patético de cobiça carnal. Torça para que haja algo acima desses 14 mil pés.

Nenhuma movimentação estranha na cabine, ninguém além dela tinha percebido. Muitos dormiam e passariam do calor das mantas de bordo para o sono eterno sem darem pelo ocorrido. Para o não-ser sem escala e sem stress. Envolveu a taça de vinho do panamenho com o guardanapo.

- Thank you so much (com uma piscadela desavergonhada).

Adeus aos procedimentos protocolares e gestos contidos. Pegou a garrafa de vinho do carrinho de bebidas e começou a sorvê-la no gargalo, olhando de soslaio a turbina com defeito. Afrouxou o nó da echarpe e sorriu cúmplice para os próprios pensamentos. Viu-se a si mesma entre as nuvens, lendo “O apanhador no campo de centeio”.

O panamenho foi buscá-la com mais uma investida.
- Um milhão pelos seus pensamentos.
- Não valem isso. E tenho pra mim que poderiam assustá-lo.
- Isso são modos de uma aeromoça que se preze, beber no gargalo na frente dos passageiros?

Há de ser o primeiro a espatifar-se, pensou. Bem na janelinha da falha mecânica e se fazendo de gostoso. Que seja agora, no pileque, a inconsciência. Explodamos de uma vez.

(Mais um gole, bem sorvido. Trança as pernas)

Caiu sobre uma poltrona vazia e espiou pela janela. Sobre o Saara, agora.

Não cesse essa anestesia boa, quero inexistir feliz. Serão semanas de busca.

Riu.
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26 Julho, 2008

TESTEMUNHA CAPILAR DA HISTÓRIA


Eram confissões inconfessáveis, sobre os maridos e sobre si mesmas. Aquilo, vindo a público, seria Hiroshima e Nagasaki à enésima potência sobre o sossego respeitável do distrito de Azinhão. Podres de filhos drogados, performances vacilantes de amantes na cama, abortos de bastardinhos, desvios de verbas municipais, além, é claro, de miríades de comentários e maledicências menores sobre a vida alheia, sem força de escândalo.

Tinha deixado o gravadorzinho escondido, preso com superbonder embaixo da bancada repleta de tesouras, escovas, esmaltes e cremes. Acionou o Rec em Extended Play, o que significava no mínimo doze horas e meia de gravação digital ininterrupta. Todas as maxiperuas da city se aprontando para o casório do ano, fazendo unhas e pés, aparando as cabeleiras e disfarçando os buços. E doze horas dava bem pra várias levas de peruas, tendo-se em conta que ficavam quando muito umas três horas ali, tempo suficiente pra se botarem apresentáveis e darem lugar à leva seguinte de falastronas.

Havia detalhes, nomes e sobrenomes de praticantes de pecados a escolher, de todo porte e gravidade - veniais, capitais e mortais. A coisa era séria, material que usado em chantagem renderia bom pé de meia, daqueles de garantir o futuro dos netinhos.

Assim arquitetava enquanto varria o salão, juntando num só balaio capilar as variadas mechas do dia. Estava feita. Sairia do serviço e, hoje à noite mesmo, faria os telefonemas necessários para estragar a festa de todo mundo. Não tinha discussão: era botar o trecho comprometedor pra madame escutar e estabelecer preço pra manter a coisa inédita.

Sim, Deuzilleide enfim embarcaria na primeira classe para todos aqueles lugares que conhecia só dos calendários de quitanda ou de tanto ouvir as peruas falarem. Era direito, era justo. Pegou todas no contrapé, azar, fazer o quê. A dona Jade, por exemplo. Custava ser mais discreta, não passava pela cabeça que alguém podia espalhar a difamação que ia destilando, entre uma e outra pincelada de esmalte? Danou-se, tarde demais.

E o melhor é que a entrada de dinheiro seria vitalícia, um esparrame sem fim de dinheiro entrando na conta. Isso porque não reuniria todo o madamório pra mostrar as gravações de uma vez só, destruindo o aparelhinho mediante o pagamento. Afinal, quem garantiria que já não tinha outras cento e cinqüenta e oito cópias do conteúdo comprometedor guardadas a sete chaves em cento e cinqüenta e oito esconderijos diferentes? O plano era perfeito. Já se via ligando: “Dona Mafalda, meu sigilo pelos próximos seis meses tá vencendo hoje. É tanto. Pode fazer o depósito”. Gravadorzinho redentor, salvação da lavourinha de Deuzileide. Bastava agora descolá-lo da bancada.

- Ai que duro, acho que exagerei na cola... força, força, força... mais um pouco... agora vai...

Ploft. Deuzileide do céu, de um golpe o precioso submergiu no balde da faxina. Valha-me, Nossa Senhora. Ficou passando pano seco, mas nada do bichinho dar acesso às suas entranhas. O Power nem acendia. Quem sabe colocando debaixo do secador. Com mil penugens eriçadas, olha a cena... Deuzileide passando secador de cabelo no gravador carequinha. Se alguém entra e vê isso, é rua.

- Seca, seca, meu benzinho... seja um bom menino pra mãezinha Deuzileide, seja.

E ele foi. Virou a mais madame de todas, tem oito franquias do Bob’s, duas lojas de conveniência, Jaguar com motorista, cobertura novinha no melhor bairro da cidade e um salão de beleza. Aquele em que trabalhava.

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19 Julho, 2008

BÁRBARA TARDIA


Assim seja. Sob a névoa da alfazema e a providencial intercessão dos santos, amém a tudo e a todos - aflições, alívios, destemperos, calmarias. Haveria mesmo de chegar a hora e a idade em que o melhor era aceitar tudo. Desse jeito tinha de ser um dia.

Fechou a porta do oratório, caminhou até a sala e tirou da estante um livro que nada tinha a ver com o seu estado. Acendeu a lareira, abriu um vinho, sentou-se. O coração quieto, o ouvido atento ao crepitar da lenha, nunca esteve tão disposto a colocar alinhadinhos cada um dos pensamentos. Gostava do domínio linear das coisas, de dar ordenamento e organização a tudo. Tentou ler. Via as palavras sem captar direito seu sentido. Poderia ligar o aparelho e ouvir alguma música, mas não se atrevia a pôr de pé seu ser plasmado na poltrona. Era a isso que se reduzia, uma vida fossilizada naquele ermo pastoril. O vento chicoteando a vidraça, as xícaras tremulando, o pó se acumulando sobre a farta biblioteca que seu pai deixou. Do Pequeno Príncipe a Sófocles. O cachorro se achega e se amontoa aos seus pés, aproveitando uma beirinha de manta. O vinho ia aos poucos laceando o raciocínio, dando corda aos devaneios. Viu o seu reflexo, distorcido, na prataria de família. Parecia uma figura de Modigliani. Acima da lareira jazia o retrato do avô com seu olhar de Torquemada, a ditar cânones e a citar genealogias.


Bárbara devia estar a caminho, disse que vinha sem falta. No oco daquele silêncio, escutaria de longe o carro quando estivesse chegando. Era uma doida, mesmo. Ria e falava alto pelos corredores longos e ecoantes do hotel onde tantas vezes se encontraram. Gostava dos escândalos, não tinha meias medidas, tudo precisava ser muito, intensamente e quando bem entendesse. Sempre foi assim, aprendeu a aceitá-la e a desejá-la sobretudo por aqueles seus defeitos. Ele próprio talvez fosse o maior defeito dela. Daqui a pouco o cachorro sairia dos seus pés e correria até a porteira, fazendo festa para a velha conhecida. Ela viria fresca, como se tivesse acabado de sair do banho. Mesmo depois das seis horas de viagem. Mesmo com as rugas vincando e o estrógeno já escasso. Mesmo com o bom senso dos parentes e amigos dizendo que não, que era loucura.


Segunda taça, já pela metade. Roía as unhas, Bárbara não chegava. Puxou o cordão, deixou semi-aberta a persiana. E pelas frestas iam passando novelos de muitas meadas, a se perderem em labirintos de hera. Sentia o ranger de uma roldana enferrujada em sua cabeça, que ia tirando devagar as querenças e desafetos do seu poço. Matar a sede não matava, mas revolvia a água parada - o que já era alguma coisa. Que pensamentos alinhadinhos, que nada. Ao olhar para as estrelas, deu um giro e perdeu o eixo. Só não caiu pois se agarrou com toda força num poema de Pessoa. Olhou o relógio: dez para as oito nos algarismos romanos dos cebolões, dos carrilhões dos mosteiros, dos cucos das tias velhas, dos digitais made in China. É isso, pensava ele, a única maneira da passagem do tempo ser de alguma forma bela: através dos lindos mostradores de relógio.


Bárbara sofreu, sim. Teve que se virar como pôde depois da morte do marido. Foi de repente, um assalto no semáforo. Nunca desconfiou de nada, o coitado. Acreditava que as saídas dela eram mesmo a trabalho. Crédulo demais. Imagina se ela, bibliotecária de órgão público, precisava viajar tanto. Nas tardes vazias do ofício foi que cismou de escrever. E escrevia escorreitamente, deitava no papel o que vinha à cabeça, sem caprichos de coesão, estilo ou nexo. Prosa desordenada, sempre em primeira pessoa. Às vezes mostrava a ele o que fazia. Não gostava nem desgostava. Sorria, de vez em quando elogiava, logo mudava de assunto, sugeria a volta pra cama.


Ele nunca quis escrever. Passava muito bem sem nenhuma idéia em mente. Durante alguns anos teve um diário. Cadernos que mantinha escondidos, depois relidos e prudentemente queimados. Pensava naqueles sujeitos todos, escritores que às vezes via em entrevistas na televisão, falando de inspiração e compulsão pela escrita, em anotar idéias nos guardanapos de restaurante, em ter insights fazendo a barba e outros clichês.

Elcius latiu e abanou o rabo. Era Bárbara que chegava, junto com Veridiana. Da cozinha, um cheiro bom de bolinho de chuva.Foram entrando sem bater à porta, Elcius se enfiando entre suas pernas. As botas de salto altíssimo batendo nos lajotões. A Bárbara de sempre, imperativa e dominadora, dando ordens aos criados.Há muito não via Veridiana. Uns quatro anos mais nova que eles, observava com atenção cada detalhe da sala, pondo e tirando compulsivamente os óculos ovais. Enfim cedia aos insistentes convites de conhecer a estância.

Passava de meia-noite quando se recolheram. No leito, virando de um lado para o outro, a roldana enferrujada não parava de ranger. O barulho acordou as duas, no quarto ao lado. Não, não estava acontecendo. Bárbara e Veridiana, diáfanas e seminuas à sua frente. E não era sonho, tampouco efeito do vinho. Na manhã seguinte, contritos, foram os três ao oratório.


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12 Julho, 2008

NÃO ME VENHA COM FIRULAS


Certo, muito certo quem diz que em boca fechada não entra mosquito – embora, dizendo isso, já esteja o dito cujo contraditoriamente abrindo a boca. Derivo a expressão popular para o papel e afirmo que página em branco quase sempre em branco mereceria ficar, abortar a idéia de um texto esquecível é um fardo a menos que se leva e que se impõe a quem lê, é uma contribuição que se dá para que o mundo continue sendo um lugar razoavelmente prático de se viver.

Pois digo, feitas estas considerações, que viva o café da manhã e sua função de alimentar, viva a aula de geografia e sua função de instruir, viva o sexo a intervalos regulares e sua função de procriar, liberar endorfinas, tornar os dois humanos envolvidos provisoriamente saciados e com baixos teores de neurose no trato social.

De que serve, convenhamos, a insistência em coisas sem serventia, que não caibam no porta-malas envoltas em plástico-bolha, não tenham manual do proprietário e não se ponham a acender seus leds indicadores de funcionamento quando pressionado o botão esquerdo do painel frontal?

Viva o pai que se engravata e sai à caça do leão de cada dia para sustentar as bocas que tem em casa, viva a mãe com suas panelas na fervura e seus tupperwares no freezer, viva a solidariedade providencial dos vizinhos a nos suprir com suas xícaras de açúcar.

Louvado seja o Louva-Deus em sua silenciosa missão na cadeia alimentar, bendito seja o Benedito, primo-irmão do Juvenal, aquele que entrega em mãos as contas do Credicard. Ergam-se bustos e confiram-se títulos de cidadãos beneméritos aos carrancudos engenheiros debruçados em cálculos e estruturas, a projetar pontes para que as hordas dos desocupados possam vagar com segurança.

Soem todas as trombetas em honra e glória à barba bem escanhoada, ao dízimo recolhido pontualmente, às revisões automotivas feitas nos prazos previstos, aos sapatos que espelham o asseio do dono, aos esquecidos hábitos de levar um lenço ao bolso e trazer sempre um guarda-chuva à mão.

Corra assim o real da vida, ainda que tosca e sem quinhão de alento, mas vivida em carne viva. Rude que só vendo, regida pelas estações mal definidas, greves, partos prematuros e buracos na pista.

Abaixo a cantilena estéril dos poetas, a troca que o ator tem com a platéia, os compêndios filosóficos e as notas de rodapé. Exceção se faça a Los Hermanos, me dizendo agora, em meu dispensável MP4, que “sem você sou pá furada”.


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05 Julho, 2008

PROLIXO

Coloco sem pestanejar o meu cargo à disposição e a minha honra em jogo se não for a pura expressão da verdade o que irei narrar nas linhas que seguem.


Juro, com a mão direita sobre a Bíblia, perante a justiça de Deus e a dos homens, que nada omitirei ou acrescentarei à bombástica e reveladora sucessão de acontecimentos de que fui testemunha, afirmando que os mesmos têm efetivamente o poder de mudar o curso atual da história e afetar de forma indelével e contundente a vida de um terço da humanidade, numa projeção bastante conservadora e tomando-se por base a parcela economicamente ativa da população.


Alerto, de antemão e a quem interessar possa, que me encontro munido do necessário arcabouço jurídico para defender-me daqueles que, maldosa e levianamente, tencionarem levar-me às barras dos tribunais por provocar-lhes eventuais infartos do miocárdio, colapsos nervosos, palpitações, tremedeiras, espasmos e outros fenômenos de natureza semelhante e conseqüências potencialmente fatais, advindos das revelações a serem por mim anunciadas.


Ainda que se argumente que tais revelações não se caracterizem em si mesmas, numa análise fria e cartesiana, como capazes de insuflar o pânico nas massas e manifestações de protesto das categorias profissionais mais articuladas, seus insondáveis desdobramentos levariam a resultados a bem dizer catastróficos. Políticas internas e relações internacionais, economias capitalistas e socialistas, transportes coletivos e individuais e até mesmo a sintaxe dos idiomas atualmente falados no planeta seriam mortalmente abatidos e cruelmente dizimados de forma truculenta, impiedosa e avassaladora, mesmo que empreendidos todos os esforços em contrário.


Do ponto de vista da prudência e do instinto de auto-preservação, não há dúvida de que deveria este escrevinhador desviar a pauta para assuntos mais amenos, que em nada lembrassem o messianismo e a responsabilidade imensa de que forçosamente estou imbuído, na qualidade de guardião de um segredo capaz de deflagrar centenas de revoluções simultâneas nos quatro cantos do mundo. Algo, porém, lá no fundo da alma e da consciência, clama para que a verdade venha à tona, custe o que custar e doa a quem doer. Mesmo que possa ganhar legiões de inimigos, que seja injustamente chamado de anticristo e taxado pelas esquinas de pomo da discórdia, não renunciarei ao me direito de livre expressão e ao meu dever de alertar a comunidade do iminente perigo que corre.


Expostas estas indispensáveis considerações, iria finalmente elencar os fatos, não fosse ter percebido nesse exato instante (uma e meia da madrugada, horário de Brasília) que o limitado espaço que possuo (três mil caracteres, no máximo) ora se esgota, à minha revelia e ante a justificada ira de meus dois ou três leitores. Por serem assim tão poucos, creio não correr sério risco de vida. Até porque, se me matarem, aí é que não saberão mesmo do que afinal se trata aquilo que estou falando – assunto ao qual prometo voltar tão logo me seja possível.


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28 Junho, 2008

ENFIM SEU


O tempo, esse escasso recurso não renovável, abriu um precedente em sua pressa e escorreu naquele dia lentamente entre seus dedos. E que delícia esse vagar liquefeito, que deslumbre nesse poderio. Viu que ele, o sisudo regente dos ponteiros, era melado e viscoso, descobriu nele a saliva doce das virgens que deixara de beijar por achar que a elas devia compostura em seu cheiro de recato e em suas roupas de muitos botões. Qual o quê.

O tempo tomou forma de nuvens, tantas e de sortidos contornos, aquelas que deixou de apreciar por justamente não ter tempo. Foi quando decidiu encaixotá-lo, em forte compartimento – com cadeado, segredo e tudo, a fim de que doravante fosse o tempo estacionado, sem razão de ir-se esgotando. E que não prosseguisse em slow-motion, e sim pausado ficasse, suspenso pelo cansaço de não passar mais e gritasse revolto, de dentro da caixa, para voltar a correr. Mas agora ele era o amo do ingrato ir-se das horas, manteria-o criança e seu refém até segunda ordem, e estaria em suas mãos deixar ou não o tempo tornar a marcar o tempo, criar as rugas, delimitar começos e finitudes dos amores dos homens, das estações do ano, dos trabalhos enfadonhos e das esperas nas filas. O tempo seqüestrado guardaria forçosamente o frescor da pétala em viço pleno, a tez de pêssego das moças não mais desembocaria na aridez das velhas. Era dele, enfim, a caixa do bem e do mal, o termo de toda vã filosofia, o relógio que ao adiantar-se ou atrasar-se, da forma que bem entendesse, iria do nascimento ao velório e do velório ao nascimento. Divertia-se, ria o riso destravado ao viver o que não fora. Agora era brincar de vice-versa, no cerne do inesgotar-se.


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21 Junho, 2008

CHECK-LIST


Veja só, parecia uma inocente listinha de supermercado. Pois saiba, sua cadela desavergonhada, que descobri os códigos secretos que você usa para se referir às suas escapadelas extra-conjugais e aos apetrechos a serem providenciados para os encontros com seu amante. Um verdadeiro dialeto cifrado, que você julgava inviolável mas que, sem grande dificuldade, consegui desvendar. Duvida? Vejamos.

FÓSFOROS
Não venha me dizer que é para acender vela para algum santo. Você sempre foi agnóstica. Só pode ser para um outro tipo de velas, aquelas de jantar romântico, que antecede o bem-bom. Nenhuma outra desculpa é válida: nosso fogão tem acendimento automático, amor.

CALDO DE CARNE
Permite mais de uma interpretação, das quais arrisco duas bastante prováveis.
Alternativa 1: você se refere a algo que auxilie sua carne dar um bom caldo, acertei? Provavelmente alguma novidade anti-celulite, que aliás você está mesmo precisando.
Alternativa 2: o referido produto é comercializado em cubos. Cubo é a terceira potência. Terceira potência mundial é a Inglaterra. Ou seja, encontro em algum bar estilo pub.

ALHO E CARÁ
Sem comentários, de tão óbvio: suprir o estoque de preservativos, certo? De outrem, pois sou vasectomizado.

CD COMPUTADOR
Mas pelo jeito você quer sem dor alguma. Não se trata do suprimento de informática, e sim de gel para práticas pouco ortodoxas.

COTONETES
Cotonete lembra ouvido, que está na cabeça, onde vai o boné, que protege do sol, que é vital para a vida na Terra, onde existem moitas pra fazer sem-vergonhice. Decifrando: hoje tem, e vai ser no meio do mato mesmo.

PILHAS
Leia-se Viagra e/ou catuaba e/ou ovo de codorna e/ou ginseng.

RODO
É odor ao contrário. Provavelmente algum produto para eliminar cheiros no quarto após a bacanal.

Pois é, querida, caem as máscaras. Disfarçada de prosaica listinha de compras, as intenções veladas de adultério e fetiche pecaminoso. Sinto-me um Champollion moderno, decifrando seu papelzinho de Roseta. Ou seria de rosetar? A diferença é que Champollion certamente teve muito mais trabalho, você foi previsível demais. É quase um passatempo desbaratar seus códigos cheios de associações imediatas, faltou sutileza e astúcia para acobertar seus afazeres sacanas. Mas a lista continua.

CHICÓRIA (5 MAÇOS), COLA TENAZ, TESOURA DE UNHA

Pegando a primeira sílaba de cada palavra, temos sua face sadomasoquista: chicote.

6 CAIXAS DE LEITE, 8 SACHÊS HIGIÊNICOS, 2 BOLACHAS MAIZENA, 7 EMBALAGENS DE OMO, 1 ATUM EM ÓLEO COMESTÍVEL, 3 QUEIJOS RALADOS, 8 LÂMPADAS 25W (por que essa luz tão fraca, heim?) 2 GOIABADAS CASCÃO

Liguei para 6827 1382 e caiu em um sex shop. O que tem a me dizer?

UMA PEÇA DE PATINHO
O pato, no caso, sou eu. A peça é o ingresso de teatro que você me deu, dizendo que tinha ganho na promoção da Rádio Difusora AM. Enquanto o patola aqui assiste à tragédia, você cai na comédia com o cafajeste.

PALHA DE AÇO
Palhaço, ou seja, eu de novo. Último item da lista. Daqui pra frente, nem isso. Inclua-me fora, da sua lista e da sua vida. Acabo de pedir uma inflável no Delivery.

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14 Junho, 2008

SCANNING LISPECTOR


Era a sangria desatada, e se esvaía em tinto vinho a coitadinha sem consolo e sem abraços de ninguém. Restava só resgatar o seqüestrado, o pouco que fosse possível. Vanessa ia digitalizando o remoto do que houvera e não passara, velhas fotos de família já sem família nenhuma. O scanner, em vai e vem, levava e trazia a luz cegante, que em nada clareava a treva que insistia.

Clarice Lispectorava tudo até ontem à tarde, era abrir uma página sua ao léu e pronto, paraisava-se paralisando-se. Mais um gole, talagado. Grande vinho. Essa escritora e sua escritura é o que coça, incomodando. É o que arremessa cálculos, conclusões e latitudes ao abismo irremediável, sem negociação que dê trégua e alívio. E cavuca o saco sem fundo quem se atreve a lê-la, e lendo-a se atreva a escaneá-la, como as fotos em farelos sobre a mesa. Mais antigo é o mistério de Clarice, a que ficou em tomos pelas prateleiras a quem interessar possa e queira, mesmo conhecendo os riscos de se afogar no que deixou.

Mas nada de conseguir voltar atrás – era a sangria, que assim sendo prosseguia. Abusada. Clarice ou ela? As duas, no abuso de libertar-se pela fala inestancável, o verbo mudo do livro. O pretérito imperfeito na imperfeição dos retratos: avó ensaboando, torcendo, criando a escoliose no tanque. Mãe ralando queijo, lavando louça, os muitos pequenos à volta. E ela escaneando agora os restos disso. Da vida nada se leva, do dissabor se leva tudo – a herança inteira, legada em cartório com firma reconhecida. O sem calor, cheiro ou valia.

O mundo vegeta, em moribunda indiferença a ela. Ao telefone não se dê ouvidos, à TV ligada não se dê atenção, ao inodoro e ao insípido dos dias, que nessa toada dão-se adeus uns aos outros, não se dê valor algum. Reze-se, pois. Novene-se, peça-se ao Supremo.

O scanner pára. Queimou a luz. Fiquem os mortos com os mortos, hora de Vanessa deitar-se. Não sem antes uma boa colherada do nunca contra-indicado lenitivo, que os cartazes insistentes apregoam: “para o peito cheio de aflições e conflitos, Lispectorante Clarice”. Ainda que não resolva, só alivie os sintomas.



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07 Junho, 2008

A ÚLTIMA COLUNA SOCIAL


Sábado, 31 de Maio. As portas do magnífico salão nobre do Nhambiqüira Social Club abriram-se para acolher a nata da society nhambiqüirense, ali reunida para um momento sublime: a apresentação das debutantes 2008.

Tal qual família de elegantes garças, trajando branco as meninas em flor se empoleiravam no palco, a ostentar uma inocência que em nada condizia com a fama coletiva de experientes biscates, apesar da pouca idade. Incluindo a gorda e feiosinha Tércia, filha do meio do Jão da Noca.

Das sócias do clube nesta faixa etária, só não quis debutar a Fátima Djanira Fontes. Esta sim, inocentinha de verdade. Confessou em reserva a uma vizinha que o namorado, após muita insistência, conseguiu que ela pousasse a mão entre suas pernas. Fátima relatou então sentir uma certa calosidade na região acariciada, a que ela atribuiu tratar-se de um osso, ou massa tumoral de consistência firme e em avançado estágio de crescimento. Assustada com o achado, ainda que a apalpadela se desse por cima da calça, recomendou ao namorado que procurasse auxílio médico, para investigar a anomalia na região do pipi. Vejam vocês...

Mas, voltando ao nosso baile. Após a entrada triunfal com os papaizinhos, as meninotas foram agraciadas pela patronesse Laurinda Chaves com o edificante livrinho “Virgem, por que não?”. Marido da patronesse, o coronel da reserva Igor Strovsky Chaves também achou por bem presentear as debutantes com modernos Ipods, pré-carregados com arquivos MP3 do Hino à Bandeira e de uma seleção de modinhas do grande Antonio Carlos Gomes. Em elegantes trajes, o virtuoso casal contrastava com as fotos que outro dia encontrei deles num site de swing, nus em pêlo e empunhando chicotinhos.

Às sedas, tafetás, tules e cetins da ocasião se somavam elementos ainda mais diáfanos, para não dizer invisíveis, porém de outra natureza e de efeito bem menos sutil entre os presentes. Como os gases da Sra. Odila Trojan, que mesmo em ocasiões solenes dão o ar da sua graça de forma impositiva e personalíssima. O odor nauseante virou objeto de discussão nas mesas ao redor da flatulenta matrona, com os convivas tentando adivinhar que estranha composição de carboidratos, gorduras e proteínas teria formado tão explosiva bomba de metano.

Uma explicação plausível seria a péssima qualidade dos salgadinhos ali servidos. À falta de um buffet na cidade, os mesmos foram preparados no trailler de hot-dogs “Baitakão”, e se resumiam a uns engordurados croquetes de batata e salsicha, sanduichinhos ressecados de patê de presuntada, fios de ovos gorados e uma sórdida torta de pupunha e ervilha em lata.

Abrandando a pútrida química emanada da Sra. Odila, vez por outra se sentiam os perfumes almiscarados das meninas, suas mamães, titias e amigas, misturados aos vapores do uísque 12 anos que generosamente circulava nas rodinhas dos marmanjos.

Mas onde há álcool, há imprudência e desastre. E desastre houve, ainda que não causado pelo uísque dos homens, mas sim pelo inocente ponche de sidra vagabunda e peras servido às mulheres. Sem que se atinasse o porquê, e ali mesmo ao redor da baciada de espumante, a cunhada de dona Silvaninha da quitanda agarrou-se às unhadas e puxões de cabelo à professora Anabel, tratando-a, em altos brados, por “dadeira cadeiruda” e relembrando o que há décadas é voz corrente em toda esquina – o seu intermunicipal furor uterino, que não encontrando vazão suficiente em Nhambiqüira, vem sendo aplacado com garanhões das redondezas.

Com as doze badaladas vieram as danças das debutantes com seus pais e em seguida com o famoso Flávio Júnior, um quase clone do quase homônimo ídolo e que há anos quase faz sucesso com seu violão de doze cordas no Muquifo da Filó, inferninho quase centenário estabelecido no vizinho município de Seixas.

São três e meia da manhã, e estou fechando a edição desse imparcial bissemanário. Por volta das cinco e quinze, quando os exemplares chegarem às portas dos nossos respeitados assinantes, se Deus quiser estarei bem longe daqui. Fora do alcance dos jagunços que certamente serão pagos para dar cabo deste ex-colunista social.
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31 Maio, 2008

A SEUS PÉS


Ela está me olhando, como se tivesse vida a coisa de quatro pernas, um assento e um encosto. É móvel promovido com o passar do tempo à condição de ente querido, pois muito bem pode uma cadeira pôr-se acima das funções de acolher o cansaço e sustentar quem seja na troca de uma lâmpada. Ao menos essa cadeira pode, já que tem veias e vísceras e carrega em sua madeira o DNA da família e o endereço de casa.

Vem a música do Burt Bacharach, “A house is not a home”, dizendo que “a chair is still a chair”. Uma casa com uma cadeira dessas, que mesmo muda é capaz de me contar tantas histórias, é um lar afinal de contas. Acorre em viva cor o longínquo aniversário em que me empoleirei nela para alcançar a velinha do bolo. Muito depois, houve uma temporada em que quase toda tarde, esparramado na poltrona, nela apoiava os pés, fumando e tomando cerveja a olhar o quadro de Paris à noite - aquele para sempre na sala de estar, com o Arco do Triunfo em pinceladas grossas.

Há muita coisa além do automatismo dos cafés da manhã e das refeições na memória da minha cadeira, se é que a posso chamar de minha. Nela em algum momento fez-se intriga, confissões e certamente até sexo, a sós e a dois. Testemunhou ela insultos, afagos e cochilos, mães amamentando, fiéis em novena. Foi refúgio da criançada no esconde-esconde e serviu à platéia em saraus improvisados e discursos de sobremesa. Nessa cadeira à minha frente consolou-se gente em aflição, no luto e na angústia das esperas. Passou de palhinha a couro, de verniz a pátina, sem perder a identificação metálica embaixo do assento, com o selo da “Casa Allemã”. Conheceu dezenas de caminhões de mudança e tinha doze companheiras a princípio, quando a mobília era completa. Mas jamais foi objeto de cobiça. Manteve-se mera cadeira, com a discreta dignidade das cadeiras de família, tendo mais valor estimativo que monetário. Sentiu os suores frios e os arroubos dos finais de copas do mundo, no senta-levanta nervoso da torcida. Acudiu como amparo na hora da notícia triste, foi inventariada e trocou de mãos no correr das gerações.

Braços firmes e pernas nem tanto, ela parece fazer comigo esse retrospecto e permanece me encarando sem expressão, com a mesma frieza da vidraça às suas costas. É provável que sinta-se ainda hoje parte da imbuia que a gestou, ao passo que sinto nela uma finalidade e um sentido que não se esgotam no instrumento cadeira e sua mecânica utilidade.

Quando morrer, alguém se sentará nela para chorar o que fui e o que não deu tempo de ser. Um neto, quem sabe um bisneto, se tiver a sorte de viver bastante. Seja lá quem, será alguém que possivelmente pouco compreenderá do insondável da vida e do além dela, que estará ali circunspecto e calado ante o pesar da perda. Revoltado com a tirania do findar-se ou esperançoso com a perspectiva de um paraíso onde deverei flanar tendo assuntos mais nobres em mente, despreocupado com móveis e utensílios que a terra há de comer. Liberto da cansada carne para ser de novo menino, trepado em outras cadeiras de outros mundos. Então verei minha peça da “Casa Allemã” desfazer-se e passar a decorar as salas das lembranças dos que ficam.


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24 Maio, 2008

RELATO DE PRISCAS ERAS


A José Saramago, pela inspiração

Por um decreto natural, sem prévio aviso, abriu-se uma fenda de fora a fora do mundo, que engoliu aquele tempo e aquelas coisas do jeito que eram para continuarem indefinidamente sendo daquela forma. Das duas margens do grande racho foram tragados homens, mulheres e crianças, abajures, carros, telefones, estantes de livros e mesas de variados feitios e estilos. Essas coisas e seres, eleitas ao acaso pelo capricho do vale que se abria, permaneceram imunes ao estrago e à velhice. O tempo deixou de exercer sua ação sobre eles e instaurou-se o caos, embora seja sabido que chegou a existir uma constituição, um hino e até uma bandeira da pátria atemporal - ainda que ninguém tenha efetivamente testemunhado o hasteamento da mesma.

Multiplicavam-se os humanos entre as dois blocos rochosos, por não terem muito o que fazer exceto procriar e observar a fenda abrir-se mais e mais, tanto em largura quanto em profundidade. E os bebês uma vez nascidos perpetuavam-se bebês, com a idade de um dia, já que o passar das semanas, meses e anos havia se interrompido. Assim, os copuladores que ali estavam não mudavam de feição nem enrugavam, não perdiam cabelos nem a virilidade, se entretinham somente em mais e mais copular e cuidar dos eternos bebezinhos.

Além dos limites da fenda mágica, a vida corria e as gerações se sucediam normalmente, com a passagem do tempo seguindo seu curso inalterado. Não demorou para que o estranho Grand Canyon virasse atração turística, com hordas de visitantes acompanhados de seus guias a espreitarem de binóculos e lunetas os eternamente jovens que acenavam lá de baixo, tendo em seus colos três, quatro ou mais bebês de um dia.

Tal quadro era a glória para as mulheres de natureza promíscua, o alívio para aqueles que contraíram dívidas antes de serem tragados e o refúgio perfeito para os procurados pela polícia. Mas havia os alcoólatras que lá de baixo gritavam desesperadamente por uma garrafa de bebida, os fumantes que clamavam por uma bituca que fosse de cigarro, os saudosos aflitos por tornarem às suas casas e afazeres.

Organismos internacionais e ONGs envidavam todos os esforços para manter a situação no fosso dantesco sob controle, despejando diariamente no sulco basculantes de comida, galões de água, remédios e carregamentos colossais de leite em pó para os bebês de um dia, que se aglomeravam e formavam em poucos meses uma população centenas de vezes maior que a dos seus genitores.

Até que a fenda deixou de alastrar-se, iniciando um inédito movimento geológico de contração, que, inversamente ao fenômeno inicial, ia expelindo os humanos de volta à terra firme. Não é difícil supor que muitos foram os bebês de um dia e os adultos procriadores esmagados pelo efeito morsa, formando um mar de sangue e vísceras em torno daqueles que a custo se debatiam para alcançar a superfície e sobreviver.

Por serem em muito maior número, foi no grupo dos bebês de um dia que se computou a quase totalidade dos sobreviventes. E uma vez fora do fosso passaram a sofrer os efeitos normais do tempo e se tornaram adultos, habitando as cidades, os países e os continentes da forma como os conhecemos hoje. Por ser verdade, eu, escrivão autorizado, firmo o presente relato como documento fidedigno para estudos futuros.


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17 Maio, 2008

PASTORAL



Pasta o verde da fazenda no amendoal dos teus olhos. Lavoro onírico, delírio que toma corpo e afronta o cansaço-cão. O trem da Mogiana vem chegando e descarrila ao topar com teus desvios. Bifurcadora de sinas, segues gestando tornados. O sol a pedir licença pra se pôr em tua figura. Não há átomo no cosmo que, ao pressentir tua passagem, não fique tomado de espanto e seja teu servo devoto.

Corações mirins aos pulos, arranhões nos cotovelos. Tábuas toscas que aprisionam os bezerros nos currais. Os olhares que na infância um ao outro nos lançamos, vejo agora com clareza, é a lã da ovelha polindo palmo a palmo esses alqueires.

Pois então me diga o que fazer com todo esse barro preso nas botas, as farpas todas desses mil arames, as carpas todas no azulado lago? E quanto aos vultos que se escondem nas mangueiras do pomar, assombrações que criamos nos idos de era uma vez?

O pensamento submerso no sereno reticente, bambeio as pernas, ferido. Ancinho gasto de recolher os escombros dos umbrais. É certo que em algum lugar a primavera aflora solta e desavergonhada. Talvez nós dois numa estação de águas, lívidos de cera e ávidos de ser no meio daquilo tudo que nos aconteceria. Evoca, da tua parte, esse tempo de contornos indecisos, sem termo e grávido da gente. Guarda no recato do decote a lembrança do viver que não tivemos. Essa foto aqui no colo é reles bi-dimensão no véu da tarde esquecível. Não, não quero nunca o remorso pelo nada que ouviste, no que faltou te dizer. Ainda mais a essa altura, reféns amorfos que somos de um passado que não passa. Aguça o senso do sentir, e basta.

Persevero na imperícia, desembestado em mazelas, sem freios de praga em praga. Montado nesse alazão que a nada vai me levar, além dos parcos domínios de me saber e de te adivinhar. Resiste o nó de você no areião dos exílios. Que carícia na penugem das espáduas, cá dentro o vento te esculpe no mole mármore das nuvens. Marisas aos montes entram pelos tímpanos e reverberam nas entranhas. Eis agora a mesa posta com os frutos dessas paragens, que nascem e jazem escondidos nos cantos da tua boca. Deita-te sobre a música, deixa-te sonhar também.





Essa linha em branco aí em cima é a que falta ser escrita no evangelho de nós dois. Atira a primeira sílaba, espero que seja "sim", começa que eu acompanho.
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10 Maio, 2008

HOMENAGEM À VÓ TINHOCA


A Vó Tinhoca era uma velha muito da xexelenta e da maledicente. Do tipo ranzinza que ronca e fuça, que estorva e bisbilhota onde não é chamada, onde não é desejada e muito menos útil. Seria em seu tempo o que hoje designamos “mala”. Uma mala gasta, feia e abarrotada de tudo o que possa existir de odioso na face da terra.

Nascida Antônia Leocádia di Piero Vantruz, nossa homenageada viveu 97 longos anos a serviço único da fofocaiada rasteira, incumbência a que se entregava com prazer e sofreguidão. O boato era sua vida e sua cachaça, e a esse vício era de tal forma dedicada que abdicou de marido e filhos para fazer dele o seu sacerdócio.
Filha de Maria, ostentava uma beatice de fachada, mas que lhe valia certo verniz de honorabilidade e lhe franqueava o ingresso a alguns salões mais exclusivos e bem freqüentados, de onde retirava valiosa matéria-prima para produzir injúria.

Não obstante a manipulação sacrílega que fazia da religião, tinha lá seus santos no oratório doméstico, e era bom mesmo que tivesse para se aliviar de tantas e pesadas culpas. Mas quem conheceu a velha a fundo jura que ela abusava de São Tomé e de São Jorge para coisa bem diversa da remissão dos pecados e do alívio da consciência. Na verdade, apoquentava as figurinhas de gesso com promessas para descobrir segredos de alcova da vida alheia, escândalos iminentes, calotes insuspeitos, amores clandestinos, passos em falso de figuras ilibadas da sociedade jacutirense. A delícia da desdentada era dar com a língua na banguela, destilando febrilmente seu veneno nas casas de comadres, em infindáveis diz-que-diz-ques guarnecidos por suspiro e suco de pitanga. A velha era uma “véia”, e é preciso que se diga que entre velha e “véia” há uma colossal diferença de sentido. Quem é da região do Vale do Jequitinhonha, berço e túmulo de Tinhoca, sabe bem do que estou falando.

O fato é que nossa heroína ia aniquilando reputações de casa em casa, os olhos esgazeados e a boca murcha, com batom fora do contorno, tremendo de gozo a cada vez que explodia a “bomba” da ocasião no ouvido alheio. Feito o serviço, ria seu riso rouco e desafinado de bruxa da carochinha, sacudindo os peitos derrubados debaixo da papada gorda e cheia de dobras.

Tamanha era a ânsia em passar adiante a fofoca fresca que ela, com a jugular pulsando e a respiração entrecortada, respingava doses cavalares de saliva sobre o ouvinte, o que lhe granjeou, além da mais do que justificada fama de candinha, a alcunha de “Tinhoca Chuvisco”. Dependendo do teor da novidade, Tinhoca era um verdadeiro aspersor, capaz de estancar a seca do sertão com meia hora de mexerico.

Dito isso, você, leitor complacente, me pergunta: “Sim, mas e daí?”
E daí que era só isso o que eu queria, pintar um retratinho pálido e despretensioso da velha Tinhoca, essa verdadeira indústria de calúnia e difamação. E homenageá-la falando um pouco mal dela, que é o que ela mais gostava de fazer com todo mundo. Mas, pelo amor de Deus, que isso fique só entre a gente, heim? Não vai espalhar.

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03 Maio, 2008

GELO


Preso no ímã da porta da geladeira estava um bilhete de Maria Carolina, um pouco mais extenso e muito menos inocente que a média dos bilhetes domésticos.


“Sempre a mesma carne, todo dia, cansa. Precisa dar aquela variadinha básica no cardápio, e foi isso o que fiz, amor. Te traí porque sou humana, seria mais fria que esta geladeira se ficasse só ao teu lado e fizesse vista grossa à grande oferta de outros homens. Sendo a vida uma só, me parece muito pouco pretensioso conformar-me ao convívio de tuas manias mesquinhas, tua escova de dentes em péssimo estado, teu ar de cardíaco no pós-operatório e tua barriga de cerveja que cresce junto com a minha repulsa. Eu fiz o que tinha que ser feito em hotéis vagabundos, nas festas da firma – da firma em que você trabalha, diga-se de passagem, e até em mictório de metrô. Eu fiz com quem se habilitasse e tivesse aquele negócio em razoável estado de funcionamento. Eu fazia onde desse, e confesso que afoitamente e no improviso era melhor. Nos carros pequenos e grandes, muros, quitinetes emprestados e na roda gigante de um parque de diversões, com um sujeito barbudo que puxava uma perna, coitado. Teve um dia, amor, que foi na escada de incêndio, aqui mesmo em nosso prédio, com três vizinhos de uma vez e mais aquela morena de cabelo liso do 121. E quando disse que ia ao cabeleireiro, na terça passada, estava era tirando um filho de nem sei quem. Eu te sacaneei demais, se tem outra vida além dessa miséria em que a gente se arrasta, minha luxúria já cavou lugar cativo no fundo do inferno, à direita do coisa-ruim. E quanto mais eu fazia de dia, mais eu gostava de ir contigo à noite, pela cosquinha de saber que você nada sabia, pelo gosto de enganar mesmo. Dava uma pena danada ver você ali, arfando com uma pontinha de orgulho, achando que a minha fome era sinal de que eu me guardava pra ti. Se serve de consolo, fica sabendo que a dependência em fornicação variada é de família. Tua sogra nunca prestou, desde a menarca até hoje, e a mãe dela quase foi presa, tamanho o fogo e a devassidão. Quanto aos nossos filhos, nem precisa ficar na dúvida. Já de cara eu te garanto que não são teus, mas não exija de mim um prognóstico de possíveis pais. Seria leviana em arriscar um short-list, e dentre os inúmeros suspeitos está o teu irmão, Lúcio, pedaço de mau caminho que me levou às nuvens na piscina da casa de praia, no réveillon de 2002, enquanto você roncava entupido de vinho. Se depois de tudo isso ainda tiver fome, tem carne de panela no potinho atrás da gelatina. É só esquentar. Até um dia, amor.”

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26 Abril, 2008

O CHAPÉU RESISTIRÁ!

Tudo pode cair de moda na indumentária, até mesmo as recém-inventadas ceroulas e os modernos espartilhos, mas os chapéus hão de resistir bravamente. Isto é tão certo quanto a eleição de Prudente de Moraes no próximo pleito.

Admito que a procura pelo artigo vem caindo nos últimos meses, fato desolador mas inegável, na qualidade de proprietário de uma casa do ramo. Atribuo, contudo – e o tempo me dará razão, que esta debandada da freguesia é fenômeno isolado e momentâneo.

Não se lançam assim, no fosso do esquecimento, três gerações dedicadas à arte e ao ofício da chapelaria. Uma dinastia que começou com meu avô Ariovaldo, no “Palácio dos Chapéos”, continuou com o glorioso “Ao Chapéu Elegante”, casa que marcou época sob o comando do meu pai, Jabur, e prossegue comigo, com a afamada “Chapelândia”.

Afirmar que os chapéus cairão em desuso é o mesmo que dizer que deixarão de ser usados os leques, as abotoaduras, os cueiros, as anáguas e as galochas. Trata-se de sandice a que não se deve dar crédito. Um cocuruto desprovido de chapéu é uma afronta aos bons costumes, quase uma incivilidade no passeio público e nos compromissos sociais. Além de ser também uma descortesia para com as damas, que aguardam que o tirem da cabeça à sua passagem, em sinal de respeito e galanteio.

Em suas variadas formas, eles têm lugar cativo nas ruas e na história. Os panamá, os coco, os de abas largas e os nem tanto, os de feltro, os de couro, os de lã e, porque não dizer, os de palhinha. Sim, os de palhinha branca, que tanto alvoroço fazem nas quermesses, festas do Divino e páreos do Jockey Club, engalanando os janotas.

Mais que objeto de adorno, o chapéu tem serventia. É isolante térmico sob o sol inclemente, protege do vento as madeixas das melindrosas e os cachos do maganões e serve até de guarda-chuva, em pés-d’água de menor intensidade.

Sejamos realistas, meus leitores. Com o fim do chapéu estaria extinta toda uma cadeia produtiva que gira em torno dele, sacrificando milhares de empregos diretos e indiretos. Seria um desastre na pujante indústria de porta-chapéus, também chamados de “fradinhos”, peças indispensáveis nos vestíbulos das residências e cuja manufatura segue em franca expansão, tanto de um lado quanto de outro do Tratado de Tordesilhas. E que dizer dos mendigos, que não teriam onde colocar os parcos caraminguás que lhes são lançados nas portas das igrejas? Até eles estariam em maus lençóis com a extinção do chapéu.

Outros abalos irreparáveis, na falta desse item indispensável do vestuário, se fariam sentir nas comissões de frente de escolas de samba, nas festas de peão e nas romarias montadas rumo a Aparecida do Norte e a outros santuários. Sem falar naquele famoso quadro do Raul Gil, que obviamente deixaria de existir.

Nem todos, entretanto, têm a mesma perseverança e obstinação que eu nos negócios. Já vejo fraquejarem alguns concorrentes de peso, o que para mim é motivo de regozijo. É o caso do “Chapelão de Ouro”, que desde a semana passada ostenta em sua vitirne uma faixa com os dizeres: “Passo o ponto a quem interessar possa, com farto sortimento de chapéus incluso. Tratar comigo no horário da sesta”.

É também do “Chapelão de Ouro” essa promoção, que consta de um panfleto distribuído nas ruas: Na aquisição de qualquer modelo de chapéu das afamadas marcas Ramenzoni e Cury, V.Sa. ganha um boné para seu menino e um véu de missa para sua patroa.

Duvido que dê retorno. Há de fechar as portas, brevemente. Aí então reinarei sozinho no mercado.


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19 Abril, 2008

MIM TARZAN, YOU TUBE


Definitivamente, Tarzan não estava em seus melhores dias. Chegou à repartição meia hora depois do cacique, derrubou pó de guaraná na camisa branca e, como se não bastasse, o programa travou no meio da planilha. O relatório precisava estar pronto dali a duas luas, no máximo.

Ficou olhando impotente para o mico computador, contando até 10 para não esmurrá-lo. Era todo de jacarandá, com uns detalhes em peroba rosa. Talvez por isso desse pau o tempo todo. Comprado de contrabando, veio escondido debaixo de um carregamento de mogno vindo do Amapá.
O gabinete de Tarzan era no décimo oitavo andar da palmeira imperial 15, Asa Sul de Bem-Te-Vi.

Lá vem ela: Jane. Aquilo não era uma mulher, era uma reserva natural paradisíaca. Assim ficava difícil se concentrar no trabalho. Funcionária nova, chegara ali transferida da Funai, depois de ter servido oito anos na Sudam. Se aproxima insinuante e pergunta qual o melhor caminho pra voltar pra casa.

Meu Santo, Daime forças pra resistir à tentação. Seria uma inesquecível transa amazônica...

Tarzan explica que o caminho mais fácil é pegar o cipó 12, passar três estações, fazer conexão com o cipó 35, saltar na Avenida Vitória Régia e dali ir de canoa até sua oca.

Com vestido de chita essa Jane fica um arraso, ele pensa. Mas, se abatesse a presa, teria que ser mais cauteloso do que com aquela gata vestida de oncinha, que levou para o meio do mato na semana passada. Por um descuido a conta do Moita’s Hot Night foi parar na fatura do cartão de crédito. Pra explicar em casa não foi nada fácil, o couro de jacaré comeu solto quando chegou na cabana.

A reunião com a diretoria foi demorada. Pauta do dia: Alternativas para livrar a selva de pedra da extinção, detendo a devastação da cidade pela floresta e preservando os mananciais de CO2. "O crescimento desordenado da mata nativa vem engolindo impiedosamente as chaminés das fábricas. Se não fizermos alguma coisa agora, não vai sobrar uma fumacinha para as próximas gerações", argumentava colérico o gerente de assuntos institucionais. E aí a discussão se estendeu com todo aquele papo de sustentabilidade, de responsabilidade ambiental, que a empresa precisa se mobilizar pra calar a imprensa e aplacar os ânimos da opinião pública, etc. Ao final, tudo combinado e nada resolvido. Saiu esgotado do blá-blá-blá e parou no bar para um Gin das selvas. Duplo.

De volta à cabana, acessou amazon.com e encomendou o último lançamento do Ramos de Carvalho, que o Campos Nogueira havia recomendado para seu primo, Pinheiro da Serra. Aproveitou e comprou também um ensaio do Florestan Fernandes e um CD da Vanessa da Mata.

Já na rede, pegando no sono, o celular toca. Era o Aníbal pedindo que lhe quebrasse um galho. E toca o tonto do Tarzan a se embrenhar floresta adentro, com a moto-serra nas costas, pra resolver o problema do amigo.

Nisso já clareava o dia. Parou na banca de jornais, comprou a “A Voz Nativa” e leu a reportagem sobre um projeto voluntário de crianças que derrubavam árvores para transformar em roçados de arroz e soja. A matéria também falava de um grupo de adolescentes que drenou um rio e seus peixes para enchê-lo de asfalto. As fotos mostravam as mães dos meninos chorando de emoção, o jornal elogiava o exemplo de cidadania, um representante da ONU veio condecorar a escola e os alunos pelo feito inédito e inspirador.

Com os olhos marejados, dobrou o jornal e seguiu direto para a repartição, exausto e sem banho tomado, mas com o gratificante sentimento de que nem tudo estava perdido nesse mundo.
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12 Abril, 2008

FLAGRANTES LONDRINOS


Flagrante Um

As perdizes grelhadas, ao molho de damasco e nozes, estavam particularmente tenras. Her Majesty Elizabeth passa placidamente o fio dental, removendo um resíduo de alecrim alojado entre dois molares da arcada superior. À sua esquerda, um assessor de terno risca-de-giz relembra a pauta a ser discutida com a delegação do governo australiano, já a caminho de Buckingham. Em 12 minutos terá início a audiência, e dois furgões da BBC rondam há horas pelas proximidades. Um discreto muxoxo e um sinal de desaprovação com a cabeça deixam claro ao estilista real que os oito modelos de chapéus sugeridos não agradaram. “More options, please”.
A rainha quer um tempo. Tranca-se em seus aposentos, afasta um dos quadros da parede, abre o cofre e dele retira sabe-se lá o quê.
Jamais súdito algum, nem membro do cerimonial, quiçá o Príncipe Philip saberá do que se trata. Acaricia o que tem em mãos e suspira fundo. Beija o misterioso objeto como se fosse relíquia e o recoloca onde estava.

Em outra ala do palácio, Philip espreguiça-se no divã. Antes de ferrar no sono, olha para a garrafa de bebida na mesinha ao lado e lê no rótulo a tradicional inscrição: “By appointment of Her Majesty the Queen”. As letras começam a dançar ao piscar lento das pálpebras. “Grande porcaria”, ele pensa. “O que ela entende de gin?”



Flagrante Dois


Membro da Guarda Real desde 1997, ano da morte de Lady Di, David Mansfield está impassível em sua guarita na entrada principal de St. James Palace. Mesmo sem o glamour de outros tempos, o palácio ainda é muito assediado por turistas. Há câmeras por todos os lados, e qualquer movimento seu estará sendo registrado. Preferia o inverno e o vetusto uniforme cinza que o escaldante mormaço daquele dia, ainda que o figurino ficasse mais atraente ostentando a vistosa farda vermelha. Como sempre, os grupos de excursões se sucedem à sua frente. Querem fotos junto à estátua humana. “Mãe, o olho dele não mexe mesmo. Nem pisca”. “Tira uma foto minha que depois eu tiro uma sua”. Até chifrinho atrás do capacete de pêlo de urso ficavam fazendo. Um golpe mais forte de vento acabou por levantar a mini-saia da mocinha à sua frente. Foi quando teve uma reação fisiológica involuntária, que esperava não ter sido documentada pelas câmeras.



Flagrante Três


Richard Smith avistou Dorothy Lester pela primeira vez às nove e quinze da manhã de uma cinzenta quinta-feira. Richard é supervisor de manutenção do ponteiro de minutos do Big Ben; Dorothy, do ponteiro de horas. Guardiões da pontualidade britânica, ambos estavam agarrados a seus respectivos objetos de trabalho, lustrando e tirando o pó a dezenas de metros do chão.
- É nova por aqui?, gritou Richard.
Sorrindo encabulada ela disse que sim, mas tão discretamente que ele nem percebeu. Os minutos foram passando e eles foram se aproximando. “What a lovely girl”, pensou Richard, zonzo pela vertigem da altura e pelo encantamento de Dorothy sobre ele. Às nove e meia, se entreolharam e sorriram cúmplices. Às vinte para as dez, ponteiros mais próximos, começaram a namorar. Cinco minutos depois, quase coladinhos, noivaram. Ao meio-dia em ponto, Dorothy ficou grávida. Os sinos do histórico relógio do parlamento badalaram de alegria. Quando desceram, a Abadia de Westminster já estava cheia de amigos para assistir ao casamento.
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05 Abril, 2008

SANCTUS


É na paz dos que não têm pressa nem compromisso que não se possa adiar que Irmã Helena atravessa, pontualmente, o corredor central que liga os dormitórios das noviças à capela dos Aflitos. Hoje tem o cenho franzido e o andar acelerado. Passa um pouco das quatro e meia, hora limite para que se recolha o latão de leite, a lenha recém-cortada e se coe o primeiro café do dia. Madre, valha-me, atrasei esse tantinho porque aumentei as intenções da reza. Deus Pai esteja comigo. Não se atribule o teu coração, mantenha tua quietude ainda que tudo conspire contra o que intentas.

Abre o breviário com a foto e uma pequena biografia da beata Sofia, que deixou este vale de lágrimas com fama de santidade. O grande vitrô com a cortina semi-cerrada deixa ver as sepulturas simples das antigas Superioras da Ordem, cobertas de musgo no jardim do claustro. Ela inspira longamente, apesar do aperto do colarinho ela puxa fundo o ar da manhã. O colarinho é duro e é quase irresistível compará-lo a uma coleira, não por forçosamente a prender ali, já que viera por vontade própria; mas de qualquer forma o colarinho era um anel, na aparência e no sentido, a lembrar-lhe os votos de obediência, pobreza e castidade.

Junta as mãos observando o escorrer lento do café coado, ora para que o mau pensamento seja varrido como varrido e encerado estará sendo daqui a pouco o chão da capela pela Irmã Dalva.
Que cessem sobre teus filhos, Senhor,a sujeição do espírito pela carne, a dominação da lascívia e do pecado, da luxúria e suas ciladas, das tentações sensoriais que embotam o tino dos irmãozinhos além-muros. Fora desta casa de vocação e recolhimento há hordas de desgarrados, na busca vã do que lhes dê sossego e satisfaça os ímpetos. Olhai especialmente pelos que sofrem, gente nas filas para o que quer que seja ou que se necessite, gente cumprindo aviso prévio à força, clamando bálsamo para suas chagas, gente fazendo gente mesmo sem querer que gente seja concebida. O semblante do Senhor crucificado pouse sobre todos esses desvalidos, é o que implora essa tua imperfeita e humilde serva.

Na grande mesa de carvalho uma pilha de hábitos sem mácula, seus e de todas as demais irmãs, recende mais forte a sândalo agora, nessa quietude que precede o amanhecer, trazendo vinte e quatro horas iguais às últimas vinte e quatro horas, que nos últimos vinte e quatro anos permanecem imutáveis como as palavras do Pai Nosso, que assim há de ser recitado nos próximos vinte e quatro séculos dos séculos, amém. Ontem, tirando a sobrancelha, deu com três fiozinhos brancos.
Não vos preocupeis com o dia de amanhã. Ah, se todos soubessem do rosário e seu poder imenso, agasalho que nunca desguarnece, ombro que nunca há de faltar. Não pela vaidade que os fios brancos incomodavam, mas pelo indício da aproximação do tempo em que faria companhia às superioras sepultas, em que estaria também sob uma laje rachada, debaixo de sol e chuva, a aguardar a ressurreição dos mortos. Que esse momento tarde muito, te esconjuro. Mas seja feita a Tua vontade, e não a minha.

O telefone, Deus Pai, a essa hora?
- Helena... Helena, é você?

O coração disparou, o café transbordou, a ligação caiu. Mas Irmã Helena manteve a serenidade e de novo respirou fundo, apesar do colarinho. O dia estava apenas começando.
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29 Março, 2008

OBRIGADO, MAMÃE


A natureza sempre mostrou-se pródiga ao nos brindar com plantas para todas ou quase todas as moléstias, de quadros irreversíveis de Parkinson a furúnculos de ocasião. Assim foi durante séculos com o chá de couve-manteiga, que não obstante o nome frágil da verdura era capaz de dinamitar em minutos a mais titânica pedra no rim. O mesmo se pode dizer do alecrim, célebre por sua propriedade de deter a leucemia em estágio avançado, pelo menos entre os eunucos da Ásia Setentrional, que em número de 47 serviram como grupo de controle nos estudos levados a efeito pelo “The New England Journal of Medicine”. Há que se citar também o alívio que o reino das ervas oferecia ao masturbador contumaz, que em 97,3% dos casos relatados lograva aplacar o vício solitário com a ingestão diária de três cápsulas de semente moída de tangerina anã, até então empregada com sucesso enquanto antídoto e estancador do priapismo provocado pela catuaba.

Mas os tempos são outros, e a camomila, a hortelã, a erva-cidreira, o boldo, o sapotizinho do mato e a babosa espinhuda já não abundam nos quintais das tias velhas. Por seu turno, os congêneres de saquinho, vendidos nos supermercados, são sabidamente de efeito retardado e duvidoso. E confirmando Lavoisier em sua máxima de que “na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma”, o fato é que ela hoje nos oferece substitutos tão ou mais eficazes em sua ação curativa e profilática. Como o espaço de que disponho e a paciência do leitor não me permitem citá-los todos, aí vão alguns que me acorrem de momento para ilustrar minha tese.

O chá de pneu em lascas, que para gagueira é tiro e queda – seja ela de manifestação congênita, hereditária, patológica ou psicossomática, entre as pessoas que cantam e as que mal sabem assoviar. Encontráveis facilmente às margens de qualquer banhado ou ribeirão, sua contundência terapêutica observa-se também na forma de ungüentos e emplastros, contanto que associados à ingestão intermitente de papéis de bala Juquinha. Temos ainda a infusão tríplice de tocos de cigarro, pet Bacana 2 litros e preservativos usados, largamente prescrita pelos plantonistas do SUS de Xique-Xique para as luxações de cadeirantes, sendo opcionalmente aplicada como escalda-pés. Os florais formulados com extrato concentrado de níquel-cádmio, oriundo de baterias as mais diversas, cuja seiva escorre a se perder aos pés das árvores, sem que o homem saiba aproveitá-la devidamente para a cura de “n” gêneros de enfermidades. O xarope caseiro de isopor e mercúrio, que muitos erroneamente renegam a crendice ou mera simpatia, contradizendo centenas de relatos avalizados por baluartes da ciência que indicam seu uso nos casos de astigmatismo e transtorno bi-polar. A garrafada feita com folhas de papel alumínio e cartucho de impressora, também chamada de “Levanta-Defunto”, responsável pela reabilitação de inúmeros casamentos no interior do Piauí. Enfim, é infinita a generosidade de mamãe natureza a nos presentear, em quantidades cada vez maiores, com estes e tantos outros santos remédios. Bálsamos mágicos a que todos devemos ser gratos e saber retribuir, repondo em dobro aquilo que extraímos.
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22 Março, 2008

HÓSPEDE À REVELIA


Como se guarda uma relíquia de família: é dessa forma que forçosamente te hospedo, profana no sacrário dos sacrários. Não te dei nome nem finalidade, não te vi na Globo nem ali na esquina, nem famosa nem desconhecida tampouco alguém dirá que és. Também, para ser sincero, não sei nem de lourice nem morenidade que doure ou alveje tua pele, nem de cabelos lisos ou cacheados, nem de palavra tua que tenha ficado, ressoando, em meus ouvidos. Te conservo em silhueta indefinida, até que venha a hecatombe que dizime a raça humana, e tudo indica que não tarda esse momento. Marmórea e absoluta nunca te apresentaste. Não, não é materialmente organizada que fazes parte de meus móveis e utensílios, que surges pelos quadros nas paredes e impregnas com teu cheiro até os vapores das panelas. Existes enquanto ser que não há de ser, e fora da abstração jamais terás sobrevida, até porque perderias fatalmente teu encanto. És o ingresso para a ópera de encenação incerta e final arrebatador, sabes disso e tiras partido dessa opacidade para manter-me em labirinto, venerando-te sem nada que justifique a adoração. Estavas na Pedra de Roseta e estarás entre os eleitos no juízo final, permaneceste fóssil na noite paleozóica e talvez ganhem teu útero as ogivas nucleares. De tua boca saem o sânscrito e a gíria dos internautas, numa babel que nada diz e a nada leva. Estudaste em colégio interno e queimaste sutiãs, sei que fizeste amor com quem quer que te olhasse demoradamente. E é dona das atenções no baile que te vejo agora, manipuladora e egocêntrica, consciente dos teus dotes e tirana, atemporal Cleópatra de caprichos tantos. Trato-te no feminino mas escapaste para aquém ou além do gênero, pois podes muito bem ser duna ou vulcão, montanha ou penhasco,primavera ou verão, como melhor te aprouver. Há os que te chamam musa, há os que te chamam deusa, e assim vais roubando o sono com tua indefinição. Pois seja como quiseres. Só te peço que me alivies um pouco o peso de te levar.
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15 Março, 2008

DE VOLTA PARA O FUTURO - VERSÃO BRASILEIRA


- Pronto.
- Gilberto?
- Sim.
- Não discuta comigo porque a gente não tem muito tempo. Aqui é você falando com você, aceite isso pra encurtar a história.
- Quem é o engraçadinho, heim?
- Eu sou o você do passado. Eu sou você aos 17. Deixa eu te explicar direitinho o que acontece: o nosso eu de 2062, ou seja, o Gilberto do futuro, tem uma mensagem urgente pra você. Ou pra nós, se preferir. Não desliga que o assunto é sério...
- Tudo bem, vou entrar na brincadeira. O que você quer comigo? Ou melhor, o que eu quero comigo?
- A gente está numa bela de uma enrascada, meu velho. Permita-me chamá-lo de velho, já que você, ou o eu que está aí, tem idade pra ser pai deste que vos fala. O sr. concorda?
- Mande o senhor para aquele lugar, seu pirralho.
- Eu não faria isso comigo. Afinal, eu somos nós, de forma que tenho que zelar por você o tempo todo, pelo meu próprio bem.
- Bom, pra encurtar o assunto...
- Ok, vamos lá.


- Nós temos 98 anos e estamos numa pior, lá em 2062.
- Nossa, que judiação...
- Deixa de ironia, Gilberto. Fomos parar num asilo em Belford Roxo, ganhamos uma aposentadoria que não dá pra nada e comemos moela com quiabo todo dia.
- Credo, eu odeio moela com quiabo.
- Então, imagina como nós devemos estar sofrendo.
- Faço uma idéia.
- O negócio é o seguinte: se você consertar um fato que vai acontecer daqui a pouco, podemos mudar esse destininho medíocre.
- Sei, sei. Mas por que o Gilberto do futuro falou com você, e não direto comigo?
- Seria impossível. Nosso eu de 2062 descobriu que existem brechas na equação tempo/espaço, que permite que pessoas em períodos diversos se comuniquem. O que inclui o sujeito falar consigo mesmo em diferentes épocas. Uma dessas brechas ocorre justamente no dia de hoje, mas possibilita contato só com o ano de 1981, que é onde eu estou. E a minha brecha tempo/espaço pode fazer contato com 2008, que é onde você está. A solução seria fazer uma triangulação entre a gente. Ele se comunicando comigo e eu passando o recado pra você. Ficou claro? Olha, eu também achei tudo muito estranho...
- Ok, mas eu quero uma prova de que isso não é trote.
- Ah, o Gilberto de 2062 pensou nessa hipótese e mandou logo três. Eu até anotei aqui pra não esquecer...
- Diga.
- Ontem você foi assistir “Juno” no cinema e ficou incomodado com um cabeção na sua frente.
- Certo...
- Dentro da geladeira tem um yakult pela metade, que vence daqui a dois dias.
- Meu Deus... é verdade.
- E você está planejando viajar pra Santa Cruz das Palmeiras na semana que vem, mas ainda não comentou isso com ninguém. Confere?
...
- Tá me ouvindo?
- Ah, sim. Claro.


- Tá convencido agora, né?
- Tudo bem, mas o que eu tenho que fazer?
- Daqui a exatamente 34 segundos vão tocar a campainha aí da sua casa. Um sujeito de camiseta vermelha e cavanhaque. Esse cara vai estar com caneta e papel na mão, colhendo umas assinaturas. Não assine! Preste bem atenção: Não assine!!! Se você assinar, vai virar comedor de quiabo e moela aos 98. Seja firme, não caia na conversa dele. O melhor mesmo é nem abrir a porta, Gilberto. Olha aí, a campainha já tá tocando...
- É, estou vendo o cara aqui da minha janela. Olha, não estou entendendo nada...
- Leia o que tá escrito na camiseta dele.
“É LULA DE NOVO, COM A FORÇA DO POVO – PLEBISCITO PELO TERCEIRO MANDATO”
- Entendeu agora?
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08 Março, 2008

CISMEI DE IR


Encasquetei, parti pra cima de mim e já fui logo ameaçando: eu vou. E quem sou eu pra discutir comigo? Acatei obediente. Não é de hoje que me devo essa viagem. Mas quero ir sem aviso, chegar se supetão é bom demais da conta. Pego a vida acontecendo de rédea frouxa, no passo lento, sem nada arrumadinho aguardando chegada.

******

A linha da vida na mão do negro Milton aponta a vereda pra que se chegue a Minas são e salvo, assobiando em lombo de pangaré. Tia Júlia espera com o doce no tacho, mexendo em fogo brando o que éramos.
Lá na cidade, cervejas no copo espumam sobre a mesa meio bamba. Os Guedes e os Borges todos, o clube em sua esquina repleto de Brants, Bastos e Tisos, que vão parindo Nascimentos tantos pela tarde afora. Três Pontas. O sol na cabeça. Minas é dura, de pedra e de ferro, não poupa ninguém do suor na ladeira.

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São sete flautas cansadas a saudar nossa chegada. Tia Júlia espalha o sal da terra na massa do pão de queijo. Há um ritmo de monjolo que orquestra tudo ao redor, do cuco ao crepitar da lenha.
Milton, braços cruzados, monta sentinela na plataforma da estação que é a vida do seu lugar. Beto, ao sol de primavera, passa a mão pelos cabelos, ri pra dentro, fala baixo. Receia olhar nos olhos, se basta consigo mesmo.

******

Que notícias me dão dos amigos? Antonia casou. Gersinho tá pra Belzonte. Os outros sempre por aqui mesmo, do jeito que você deixou quando se foi sem mais aquela. Tudo com filho criado, agora. Mas magoados contigo. Quando você foi embora, fez-se noite no viver. Eita que doeu em todos não te ver jamais. Montanha pra riba, montanha pra baixo e nada de te encontrar. Se achegue que o café saiu agorinha. E não se moleste aí, conferindo as horas como se houvesse precisão de não atrasar compromisso. O tempo aqui, é bom que te lembre, é trem que custa pra passar.

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O ciclo do ouro no nome de Minas. Depois do almoço, no quarto da tia, a rede que range. A sesta da velha, a cesta de ovos, pilão pilando fubá e o sol a pino nos costados lá de fora. Libertas Quae Sera Tamen, mineira, liberta esse viço que não cansa os olhos nem descansa o apetite. Me diz inconfidências, mineira, que me deixem vermelho que nem goiabada. Que nem o triângulo da bandeira. Que nem a chita do teu vestido.

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Depois do amor, a fome. O doce escorre da colher aos teus mamilos. Amor de Minas é bom e manso. Espreguiçado assim, desse modo esparramado em linho branco. É pena que logo tenha que dar nos cascos, antes que chegue o teu dono oficial, ameaçando de morte essa vida que ganho nos teus braços lisos. No inverno te proteger, de manhã sair pra pescar. Verde lugar, paisagem desse caminhar.

******

Ixe, nem te conto o que acontece. Senta pra não cair de costas.
Jaca madura, quase passada, pedindo corte. A seiva adocicada esculpe no ar o que Minas tem de muito mole, que a bem dizer é quase tudo no embalar das indolências. Sem pressa, como convém, no toco fiz singrar o canivete, era pequeno mas lembro, faz tantos anos e foi ontem, sou capaz de te jurar.

- Minino, vem rapidim pa drento que tá sereno.

Frases que o vento vem às vezes me lembrar. Tralhas entulhadas, secos e molhados, Minas em geral.


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01 Março, 2008

LÚCIA FOI PARA O CÉU


Era uma vez a recatada Lúcia, que farta de tudo abandonou o jogo. E após lançar-se de um penhasco próximo, deu consigo a flutuar e a atravessar paredes. Livre do carne e da gravidade, vestiu-se de luz e pôs-se a vagalumear calma e displicentemente. A chave do tempo nas mãos, todo o espaço de outros mundos a percorrer como quisesse. Via-se agora como sonhava ver-se, intercambiando entre as várias Lúcias dos dias felizes. Via-se Láctea universo afora. Via-se as muitas que fora outrora. Mamava sôfrega o leite da mãe, pulava sela e batia cara contando até cem – lá vou eu!


E lá foi a Lúcia. Já foi tarde da imundície desses dias mutilantes. Um bilhete só de ida com destino a never more. Ao entrar no vagão do itinerário eterno, pegou uma janelinha na poltrona nove. Desceu na estação seguinte, onde topou com a Lúcia em seu vestido verde de babados brancos. Recém-entrada nos dezesseis, recende a sândalo e odor de fêmea. Lúcia olhando Lúcia, encontram-se finalmente, estranham-se mutuamente.


Embarque para Saturno na plataforma 2. Lúcia cósmica cintila, enlaçada em seus anéis. Alianças várias, de formatura, de noivado e casamento. Aceita, Lúcia, esse sujeito como esposo? Pode ser que sim, pode ser que não. Provavelmente talvez. Núpcias de Lúcia. Gastando a vida em meio a trapos, afazeres e panelas de pressão. Faz as unhas, tinge o cabelo, fuma, ganha filhos e olheiras. Os dias voaram, os meses voaram, os anos voaram e Lúcia também. É, agora Lúcia voa para onde bem entender. A senhora Lúcia, senhora de si.

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